Sob nome original de Agua dos Porcos, lançado em 2020 no exterior, Águas Selvagens chega às salas de cinema brasileiras. Em sua essência, o drama policial se delimita no cinema de gênero, com seu público-alvo bem demarcado, flertando com estrutura e personagens típicos do noir. Porém, ao invés da clichê Los Angeles nos anos 1940, aqui temos a Tríplice Fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina) contemporânea. A direção é do argentino Roly Santos, que guia o projeto em co-produção com os brasileiros Rubens Gennaro e Virgínia Moraes. 

No filme acompanhamos o ex-policial Lúcio Gualtieri, enquanto ele lida com problemas pessoais e dá seu melhor para equilibrar seus relacionamentos aos conflitos que enfrenta na região das fronteiras, nesta “trama de assassinatos, prostituição e tráfico de pessoas” – como define uma das sinopses oficiais.

Certas vezes, Águas Selvagens exige estômago forte para lidar com os temas delicados, mesmo que isso fique no campo da teoria puramente expositiva. Da abertura ao epílogo, somos relembrados sobre as discussões centrais do relacionamento familiar, de interesses amorosos, vingança e de redenção, todos reciclados ao longo das duas horas de filme. Infelizmente, olhares indiscretos, caras e bocas te distanciam um pouco da atmosfera do filme, em especial pela atuação do elenco de apoio.

Um forte contraponto aos coadjuvantes rasos é a ambientação bem feita. O espaço físico importa, somado às evidentes fronteiras (entre países e/ou localidades) traduzidos pela fotografia e pelos obstáculos à frente de Lúcio. Sem receio de mostrar assuntos grotescos, há um casamento notável entre a “sujeira” do protagonista e de sua investigação, em diversos aspectos. Além disso, vemos o uso tradicional de tatuagens como definição de caráter dos personagens. É uma pena existir outro efeito: uma leve distração nos closes, por conta da má aplicação da maquiagem.

Costurando a trama, cenas pontuais resumem os simples gestos da mistura entre nacionalidades, já que Águas Selvagens é majoritariamente falado em espanhol. Em uma delas, vemos um garoto vestindo a camisa da nossa Seleção debaixo de uma da Argentina. Assim como o garoto, o filme também tenta “vestir” duas camisas – exceto por dois ou três personagens que falam somente português.

A tensão criada sobre o caso principal (e, de quebra, sobre os diversos relacionamentos de Lúcio) é recompensada para quem conseguir aproveitar o longa até o terceiro ato. Nos momentos íntimos, há conflitos de amor paterno, equilibrando o drama com uma boa dose de violência e ocasionais cenas de sexo/nudez. Já as cena de tiroteio têm um “jeitinho brasileiro” novelesco, sem eliminar por completo a imprevisibilidade de seu resultado. 

Em detalhes de segundo plano, vemos uma forte presença feminina, com personagens em situações de opressão, conflitos maternos e em deslizes na corrupção local. Por sinal, Mayana Neiva e Allana Lopes fazem um bom trabalho com suas personagens Rita e Blanca, respectivamente. Do lado negativo, cenas de nudez gratuita não fluem com naturalidade e só reforçam o esteriótipo brasileiro.

Somado a isto, há outra infeliz ressalva. Em cenas específicas, “gay” é  tratado como xingamento de mesmo nível a palavras de baixo calão. Vemos uma tentativa de redenção para explicar o posicionamento, mas isso só resulta em uma situação covarde, tanto aos roteiristas como às personagens em cena. Pois é, em pleno 2022 “gay” ainda é pintado nas telonas como sinônimo de humilhação, não um resumo da literal opção sexual dos personagens. Se a intenção era termos um exemplo de ignorância, ou algum outro contexto minimamente justificável, é uma pena, pois o tiro saiu pela culatra.

Exceto por estes dois equívocos, Águas Selvagens está mais para uma ação rasa (com perdão do trocadilho), mas vale toda a celebração pelos projetos latinos em conjunto. O desenrolar da história engasga da metade para o final; as histórias paralelas não convergem (como poderiam); o protagonista tem conflitos com simples soluções; e as motivações de cada decisão tomada não convencem.







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