Ouvir 17 músicas inéditas dos Chili Peppers é quase uma experiência religiosa. Unlimited Love, o segundo álbum nestes últimos 10 anos, salpica novos subgêneros à fórmula alternativa do quarteto novamente reunido, se provando como um saldo positivo de improvisações e reforçando a química excepcional dos integrantes. Porém, este produto final também prova que a relação “qualidade e quantidade” nem sempre dá certo com a banda.

Antes do lançamento, tivemos três músicas: a espalhafatosa Black Summer, a “velha guarda” Poster Child e a suplicante Not The One. Cada uma colocou à mesa um pouco do que observaríamos no restante de Unlimited Love. E há referências às fases anteriores da banda: o álbum ora parece trazer B-sides de I’m With You, ora retoma ideias descartadas de The Getaway, enquanto serve como sucessor espiritual aos álbuns dos anos 2000. Não é para menos: são nada menos que 12 álbuns para a conta, sendo este o sexto com a formação atual.

Cada membro carimba sua qualificação, nos fazendo viajar neste funk pesado que beira a melancolia. Anthony Kiedis é dono de uma voz que não parece ter envelhecido nos últimos 20 anos (exceto por um sotaque diferenciado, vez ou outra). Na maioria das novas músicas, Kiedis deixa sua marca nonsense e prova que a sobriedade traz letras mais casuais. Hoje, eles se distancia da mente brilhante que compôs letras como “espiões psíquicos da China tentam roubar a alegria de sua mente” e “para lamber seu coração e saborear sua saúde” – além do puro poema que foi a canção Wet Sand. Suas letras são imprevisíveis, mas há certas rimas e métricas batidas nestas composições de 2022.

Frusciante conduz suas guitarras com perfeição, derramando riffs bem elaborados e harmonias pontuais. Ele soa tímido ao evitar a sobreposição de guitarras, talvez por prever o obstáculo da performance ao vivo, talvez por querer entregar o “feijão com arroz” sem maiores riscos. Os solos parecem naturais, com pouca pressão. Por consequência, ele está menos energético que em sua carreira solo – especialmente no disco The Empyrean.

Flea e Chad Smith (baixo e bateria, respectivamente) estão entrosados como nos velhos tempos. As viradas, contratempos e batidas quebradas resgatam o funk que conquistou os fãs do grupo. É como se fossem o veículo rígido que dá todo o suporte para a “outra” dupla inventar, na voz e guitarra. Ainda assim, o baixo tem momentos de destaque, começando músicas com uma postura firme. A bateria, por sua vez, evoca a batida dos pés de quem ouve.

Há músicas de sobra em Unlimited Love. Desta vez, os Chili Peppers não conseguem chegar aos pés do que foram as absolutas 29 obras-primas de Stadium Arcadium. Das 17, extraímos oito singles, fabricados para serem o carro-chefe do disco. O restante acaba tendo dois propósitos: ou é puro fan service aos fãs, ou é tentativa de restabelecer uma nova era da banda. O simples fato de existir tantas faixas inéditas não deve ser ignorado, mas casa melhor com quem esperou 6 anos por um novo álbum (desde o antecessor) do que com quem esperou 16 anos para mais músicas com o antigo guitarrista, que deixou a banda após o álbum de 2006.

A abertura de Black Summer merece ouvidos atentos às letras, acima do instrumental heterogêneo. Há aquecimento global, crítica social, um bocado de política e a construção do palco para o Amor Ilimitado que estava por vir. Here Ever After arrisca uma temática sexual, como uma dedicatória. Pelo menos é mais discreta do que Catholic School Girls Rule (de 1985), mostrando o amadurecimento deles em suas letras.

Poster Child serve como exemplo da retomada do início da banda, com uma referência autoconsciente das raízes de rap deles – principalmente por conta do estilo de animação usado no clipe, que poderia muito bem passar na MTV em plenos anos 80/90. É a que mais traz easter eggs da cultura pop, no maior modelo de inteligência de Anthony.

Como nem Red Hot se livra dos sintetizadores, Bastards of Light pega de surpresa quem nunca ouviu aos álbuns solo do guitarrista. Pelo menos escolheram a música mais experimental para testar instrumentos pouco usados por eles, em termos de mescla dos gêneros: há arranjo acústico com slide estilo guitarra havaiana, sobrepostos por um drive pesado na guitarra e uma repentina voz de megafone. Aqui, se aproximam mais da época By The Way do que de qualquer outra.

Temos outros pontos fortes, mas nada de tão especial. White Braids & Pillow Chair segue um espírito similar de criatividade, pela inclusão de uma conclusão country. These Are the Ways é a pura rock alternativo no maior estilo Foo Fighters. Esta vertente pesada (mais do que de costume para os Peppers) age como uma versão estendida do que fizeram em Readymade, de Stadium Arcadium. Já She's a Lover mira no fã tradicional, sendo absolutamente uma colcha de retalhos dos maiores clichês deles.

Not The One segue com o lugar comum, por suas guitarras que falam mais alto que a voz. A atmosfera praiana (californiana) está no resto de Unlimited Love, porém, certas vezes o clima se transforma. Tangelo é um mood íntimo, ideal para fechar o álbum. Veronica tem uma ponte digna, reciclando outras ideias do disco. One Way Traffic é uma que merece destaque, pois é uma das primeiras da história a imitar a época One Hot Minute, álbum esquecido dos anos 90. E quando pensamos que os Peppers esgotaram todas as suas forças tocando covers de si mesmos, há uma inovação: The Heavy Wing, com refrão o cantado por Frusciante. Simplesmente o exemplo mais forte dele nos vocais, com a banda.

Unlimited Love marca um bom retorno, pois o Red Hot Chili Peppers com certeza ainda tem o virtual know-how para se modernizar, mas estes dois últimos anos não parecem ter resultado no melhor exemplo de produtividade. Atiram para todos os lados e “me acertam” metade das vezes, porém, ainda são os Peppers que a gente gosta.







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