Em Dawn FM, álbum lançado na última sexta-feira (07), The Weeknd te convida para uma breve viagem neste universo cinematográfico, reflexivo, apocalíptico e niilista criado por ele. E, por incrível que pareça, o artista conseguiu deixar tudo ainda mais “anos 80” do que seu álbum anterior, After Hours, de 2020.

Dawn FM é grifado pelos gêneros synthpop e disco, possibilitados pela enorme de produtores, incluindo os suecos do Swedish House Mafia, Bruce Johnston (do The Beach Boys), Calvin Harris e a volta de Oscar Holter e Max Martin (que também produziram o anterior). A nostalgia imposta se mistura a EDM, agora que vibe oitentista que toma conta do álbum – ora lembra INXS, ora Depeche Mode e cantores pop da época, como as indispensáveis sugestões a Michael Jackson.

O álbum inova única e exclusivamente por seu formato. É como se escutássemos à rádio 103.5 “Dawn FM”, que começa com a faixa homônima para te ajudar a se situar. Fora The Weeknd, convidados são salpicados, interpretando certos personagens. O locutor e “DJ da rádio” é Jim Carrey, cuja presença faz com que a experiência resulte em um tom bizarramente familiar e sombrio. Tyler, the Creator e Lil Wayne têm breves (e, diga-se de passagem, decepcionantes) aparições em suas features. Há ainda quebras com vinhetas e os interlúdios Tale by Quincy e Phantom Regret by Jim (com Quincy Jones e Carrey, respectivamente).

Para vender a atmosfera, temos músicas como How Do I Make You Love Me?, onde há texturas e falhas propositais, com o disco “pulando” nas batidas fora de ritmo. A ideia se repete quando temos transições sutis em duas ou três canções, criando um fluxo único – e um pesadelo para quem for ouvi-las de novo em modo aleatório.

Como um todo, Dawn FM traz 16 músicas únicas, onde apenas três ou quatro serão reprisadas em rádios (de verdade) dentro de alguns meses. O cantor retrata a morte e a noção de liberdade, mas quem quiser ignorar as letras até pode, abrindo os ouvidos só quando os sintetizadores tomarem conta.

Weeknd às vezes experimenta, como faz em Gasoline, faixa sombria onde aplica uma mudança de sotaque e do seu tom de voz (artificial). A letra também entrega de bandeja o conteúdo do disco, deixando clara a intenção de contar uma história logo nesta que é apenas a segunda faixa. Em um ciclo completo, outra que foge da zona comum é Less Than Zero, com uma breve passagem por um momento de esperança (nas letras) e o choque com a sensação acolhedora (pelo ritmo tocado no violão).
   

Dando sequência ao auge do sucesso desta persona criada em After Hours, desta vez The Weeknd traz uma história que pode ser interpretada em três partes: aceitação da morte, arrependimentos de sua jornada e o processo de purificação.

As quebras estariam justamente no interlúdio de Quincy Jones (Tale) e em Every Angel Is Terrifying, narrada pelo próprio The Weeknd/Abel Tesfaye. Esta segunda faixa é sutilmente assustadora e, em simultâneo, calha de ser engraçada por conta da criatividade da propaganda sobre pós-vida – pois é, um espaço para a “atuação” de Abel brilhar mais do que no filme Joias Brutas. Por coincidência, a voz de “Arthur Fleminger” nesta faixa é de Josh Safdie, um dos diretores do longa lançado em 2019, onde The Weeknd interpreta a si mesmo.

A referência mais óbvia para os temas dos álbuns está nos títulos em si, visto que After Hours poderia indicar a longa madrugada (extenso pavor pela morte) e Dawn significa literalmente o “alvorecer” (um novo início, ao caminho trilhado). Em adição, existe outro grande tema que permeia as músicas: relacionamentos. Por exemplo, encontramos títulos cuja mensagem superficial parece mais óbvia, I Heard You’re Married, Is There Someone Else? e Don’t Break My Heart.

Here We Go… Again carimba em suas letras os encontros do cantor com Angelina Jolie (“My new girl, she a movie star”, ou “Minha nova garota, ela é uma estrela de cinema”) e ainda sobra espaço para dar uma alfinetada no relacionamento anterior, com Bella Hadid, e o novo namorado dela (“But instead you ended up with someone so basic, faceless”, ou “Mas em vez disso, você acabou com alguém tão básico, um anônimo”). Esta também é a que soa mais moderninha, de todo o álbum.

No oposto do espectro, Sacrifice evoca Michael Jackson com um groove característico das pistas de dança, enquanto Out of Time segue para o lado de uma balada romântica. E não é só de padrões datados que o disco se sustenta. Take My Breath, lançada em agosto do ano passado, puxa mais para Daft Punk (em especial a música Da Funk). Curiosamente, é válido ouvir o precoce título no meio do álbum, pois ela te situa nos temas do álbum por mais que você a tenha ouvido antes.

Creio que o fator de replay esteja mais na análise de temas do que pelo simples prazer de ouvir às músicas. Por sinal, fãs que analisarem com cuidado às letras irão fazer conexões mais profundas a este próprio e ao álbum anterior. Starry Eyes chega a mencionar a distância (sentimental e/ou física) com um paralelo a sonhos, por exemplo, um rebote de letras similares na música After Hours. Best Friends (sobre responsabilidades e sexo) retoma a ideia de sentimentos e de um possível relacionamento tóxico que ele explica em Sacrifice e Here We Go… Again.

Não podemos negar que The Weeknd se arriscou nestas viagens criativas em busca de contar uma história cabível, mas Dawn FM não reinventa a roda quando pegamos o pacote completo. Em compensação, temos muitos pontos positivos para agradar quem esperou anos por um trabalho que impactasse tanto quanto o disco anterior. Neste, a absoluta cereja do bolo é Phantom Regret e a narração intensa (e crível) de Jim Carrey, sustentada por uma melodia vocal de plano de fundo, amarrando o que é Dawn FM: a longa mensagem de The Weeknd para ele mesmo.







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