A discussão a seguir é opinativa, sem spoilers sobre acontecimentos específicos da série. Há spoilers sobre os primeiros 20 volumes da HQ.

Finalmente adaptada para a televisão (e serviços de streaming), a história em quadrinhos Y: O Último Homem teve sua conclusão de temporada na última segunda-feira (02). Para a tristeza dos poucos que tiraram algum proveito da série, ela foi infelizmente cancelada. Y: The Last Man teve um total de 10 episódios e conseguiu contar uma pequena parcela do que seriam três temporadas totais desta jornada sobre Yorick, um dos últimos seres vivos a ter um cromossomo Y. 

O final da série mais parece o final de um episódio no meio da temporada. Quando pensamos que essa provavelmente será a conclusão definitiva da série, Y só piora. A seguir, dissecamos os principais pilares da produção e discutimos suas falhas mortais.

Onde a história errou?

Um dos principais erros de Y: The Last Man a respeito da distância ao material original está mudança do fio condutor, tanto para o protagonista como para o espectador: na HQ, Yorick está à procura de sua namorada, sabendo que ela viajou para o outro lado do mundo. No decorrer da viagem, há novos objetivos e choques de realidade, contudo, sabemos que seu coração sempre esteve lá. A adaptação, por sua vez, traz a personagem (Beth) para perto, tornando-a membro de um grupo revolucionário. 

Yorick não sabe sobre seu paradeiro, mas a situação complica quando isso respinga para a interpretação (e sentimentos) do leitor/espectador. Com essa escolha, há mais buracos na história e mais perguntas não respondidas. Sabemos que a bússola do protagonista está à beira de ter um norte; a resposta para o grande mistério está logo na esquina. Basta colocar uma linha no roteiro. Por isso, o possível descobrimento junto dele (nesta jornada) não surte o mesmo efeito a quem assiste.


Outro problema é que não parecem entender que a cadência de quadrinhos é impossível de ser transposta para a televisão. Dedicar uma edição inteira de HQ para mostrar a história de origem de um personagem (quase um spin-off) funciona, mas fazer isso com um episódio de série vira algo arriscado de se fazer. Não demora muito até derraparem e nos distanciar ainda mais de quem deveríamos criar mais empatia.

Porém, uma nova postura da série foi dar protagonismo às mulheres, ponto forte do que Y: The Last Man seria em um campo teórico. Isso ajudou a série a se vender com o incremento da obra original datada. Na prática, isso significou tirar parte do protagonismo de Yorick, coisa que precisa ser dosada para funcionar – tal qual séries com grande elenco (como The Walking Dead), ou com fortes e poucos protagonistas (Breaking Bad).

Uma produção como American Horror Story se provou, até a nona temporada, ser um exemplo de que o FX sabe o que faz neste aspecto. O erro está, então, única e exclusivamente em como Y foi manejado pelo canal.

Onde os personagens erraram?

De praxe, Y: The Last Man possui diferentes núcleos de personagens, mas nem todos conseguem conquistar o espectador. A série tem como guia a excelente dupla principal, composta por Yorick Brown (escapista nato, romântico/apaixonado, sonhador e desnorteado) e a Agente 355 (atiradora de elite, treinada, séria e responsável). Atores e personagens funcionam bem, desprovidos de demais elogios.

Dentre os deslizes de protagonistas, damos ênfase para a geneticista Dra. Allison Mann quando o assunto é má adaptação. Nos quadrinhos ela segue a dupla principal (Yorick e 355) desde o começo. Não demora a percebemos como ela prefere resolver os conflitos pelo diálogo. Mann é intelectual, determinada e gentil, sabendo muito bem quando revelar seu lado mais violento. Seu comportamento e atitudes em situações complexas deixam-na em um patamar elevado aos demais, quase sem esforços.


Do contrário, na série vemos uma figura que transborda o clichê "especialista": uma pessoa analítica, workaholic, às vezes hiperativa e com pavio curto. A sugestão de relacionamentos profundos existe, mas só porque está no roteiro. Não há química, muito menos a sugestão de um "ship" – como os leitores gostariam de ver na TV.

Beth Deville (namorada de Yorick) carrega o prêmio de maior imprudência por mudança da personagem – e parcialmente por sua interpretação. Antes de qualquer coisa, trazê-la para perto do núcleo principal não impacta a história em nada e, pelo contrário, creio que o desenvolvimento da história fosse exarcebado na segunda temporada.

Para piorar, sua presença na série consegue distrair pela estática feição de espanto da atriz. Em um flashback podemos ver seu sorriso, o único traço distante do habitual (no momento presente), então sabemos o alcance de seu comportamento. Porém, a atuação escapa da intenção de pintar, ao que aparenta, Beth como "vítima de uma lavagem cerebral" e deixa-a com cara de "assustada", a todo momento.

Olivia Thirlby como Hero Brown (Divulgação)

Hero, por outro lado, consegue ser a única que se salva do problema. Em momento algum você se questiona o que passa pela mente dela, mérito este que vai para o casting perfeito de Olivia Thirlby no papel. Ela é autodestrutiva e egoísta, como deveria ser. De certa forma, a série inclusive melhora o mau desenvolvimento dela na HQ e explora as origens sombrias da personagem, indo além da introdução apressada ao grupo das Amazonas.

Por consequência à falta de empatia, mortes "chocantes" de personagens são momentos desperdiçados – inclusive com quem conhece os quadrinhos e sabe o que sentir/esperar. Em paralelo temos uma atmosfera confusa, com um constante desespero e medo, inclusive de quem não deveria. Isso por si só significa má direção.

Tomando os dez episódios como um todo, podemos observar que Y: The Last Man se contradiz. O receio em reinventar verdadeiramente não passa de uma fachada para  

Onde a produção errou?

O norte-americano The Hollywood Reporter deu o furo completo sobre o cancelamento de Y: The Last Man, agregando todas as informações da gigante bola de neve formada nestes últimos anos. Em suma, o FX comprou os direitos em 2015, anunciou a produção em 2019 e, desde então, houve complicações com a produção. Showrunners com divergência criativa, o protagonista que pulou fora e uma pandemia mundial dificultaram o processo.

(Divulgação)

O cancelamento em si veio em 15 de outubro, quando o FX decidiu que não renovaria o custoso elenco com 3 milhões de dólares adicionais. A primeira (e única) temporada ainda estava indo ao ar. De acordo com informações do THR, a baixa audiência não foi levada em consideração para o canal decidir cortar os custos.

A julgar pelo sucesso crítico de Lovecraft Country, premiada série da HBO que foi cancelada em 2020, a balela de ela "encontrar uma nova casa" em outro serviço de streaming/canal de televisão também não deverá funcionar com Y: The Last Man. A insatisfação do público com certeza foi um agravante, somado aos problemas de produção citados acima.

Em entrevista recente (publicada no dia que o último episódio foi ao ar), a showrunner Eliza Clark reafirmou que tem planos para uma segunda temporada e, a princípio, pensava que Y seria ainda maior, com cinco temporadas. A respeito de uma continuação direta, em uma 2ª temporada veríamos mais sobre "a pesquisa que Allison estava fazendo e como isso pode (ou não) ter algo a ver com o que aconteceu no mundo".

Ademais, na terceira temporada, teríamos "um novo conjunto de mundos que se chocam contra" os protagonistas. Esta seria consequência direta do que vimos antes, agora com "todos os mistérios (...) em busca deles". Ou seja, o clímax de todos que buscam por Yorick.
"Tinha o plano inicial de a série ser composta por cinco temporadas. Isso ainda é verdade."

O que não estava nos planos era anunciar o cancelamento de maneira precoce. Clark conta que isso só aconteceu por conta do vazamento da notícia. Ela também acoberta a própria casa: "FX é um parceiro incrível nisso e acho que eles também ficaram chateados por não haver mais tempo. Acho que, criativamente, eles realmente gostaram do programa".

Aos conhecimentos da showrunner, houve uma queda de audiência, mas ela não soube nenhum número exato. Sobre maratonadores de plantão, ela diz que a audiência acabou sendo um ponto anedótico, em parte por claramente não conhecer seu público-alvo. "Acho que é assim que as pessoas assistem séries de streaming. Não é realmente culpa de ninguém, mas [Y] não teve o tempo necessário para ganhar o público que estaria lá para isso", conclui.

Os 10 episódios de Y: The Last Man estão disponíveis no Star+.







Comentários