Uma coisa é óbvia: uma casa, vista em qualquer instância de alguma narrativa, sempre representará a identidade de quem vive dentro dela e, por vezes, a comodidade encontrada somente naquele espaço. No novo filme dos irmãos Ramon e Silvan Zürcher, também roteiristas do longa, o que importa não é tanto o que os habitantes têm em comum, mas como cada um é o fantasma de sua própria história — e também a assombração das vidas dos outros. 

Acontece que não é a primeira vez que os diretores embarcam em um projeto deste porte, tendo em vista que mostrar famílias em conflito dentro deste ambiente é uma constante na filmografia dos dois, o que demonstra que seria uma nova iteração do mesmo processo. O que difere este dos demais seria o alcance comercial, fruto principalmente da repercussão no Festival de Berlim deste ano.

Em linhas gerais, A Garota e a Aranha tem como sinopse a separação de duas colegas: Lisa (Liliane Amuat) está mudando de casa, deixando Mara (Henriette Confurius) para trás. Logo, o universo das duas é abalado quando amigos e familiares se encontram para fazer as malas e embalar os pertences enquanto o não dito toma forma. 

O auto-flagelo, o desejo, a traição e o abandono são alguns dos temas abordados. Não há um aprofundamento da trama, exceto recortes do que aconteceu e do que fica para trás estabelecidos pelo diálogo, sempre presenciado por um ou outro personagem no ponto extremo do enquadramento. Tampouco entrega qual seria o relacionamento entre as duas personagens, ou o motivo pelo qual Lisa está saindo do local. 

Mara, abandonada, sempre vaga pela casa, seja aprontando alguma situação para atrasar a mudança ou amargurando aqueles à sua volta. Lisa, por sua vez, evita veementemente topar com a colega e, ocasionalmente, desconta suas frustrações na mãe. 


Pontuado por uma obra que acontece na esquina do prédio, um símbolo de mudança que o filme propõe discutir principalmente através da desconstrução do lar, ou a trilha fantasmagórica do piano, A Garota e a Aranha funciona tanto como um drama familiar quanto um conto de terror. Não tem como não pensar nessa última atribuição dado às aparições, uma inclusive é noturna, no mínimo aleatórias e cheias de tensão; ou até como um tema banal discutido pelos protagonistas toma uma curva tensa e carregada de repreensão.  

Por fim, o que fica evidente na obra dos irmãos, por mais aberto que algumas questões fiquem, é o potencial de transformar uma narrativa situada em um prédio só em algo interessante; mesmo que, cinematograficamente falando, o filme não seja nada demais. 

Apesar disso, seja pelos diálogos em si ou uma subtrama — como é o caso da empregada —, há sempre um elemento multifacetado que entretém ao mesmo tempo que instiga o telespectador a buscar algum significado a mais. Pode ser um retrato feito à grafite por Lisa, que aparentemente não gosta de ninguém e não teria razão para desenhar aqueles rostos, até mesmo uma aranha alojada no canto do quarto à mercê de alguma vítima.

Longe de ser conclusivo, o que é ofertado está mais para as consequências do que os atos propriamente ditos, o que não faz do filme menos pesado. Pelo contrário, é fácil até demais sentir o peso do desconforto carregado pelos personagens. 

A Garota e a Aranha está em exibição (online) na Mostra Play, plataforma da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, até 4 de novembro.







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