Wounds, que estrela Armie Hammer, Zazie Beetz e Dakota Johnson, é um dos lançamentos de terror mais recentes do mundo do streaming. O filme, que pode ser assistido na Netflix clicando aqui, também ganhou trailer. Veja abaixo:

RESUMO DO POST:
  • As feridas são portais entre dimensões
  • Os colegiais fizeram um ritual em Eric
  • A ligação para Garrett é o gatilho para a última etapa
  • Will se torna o receptáculo para todo o poder da entidade celestial
  • Com referência aos outros feitos da entidade, pelo visto isso não acabará bem para Will
Curiosamente, o longa foi lançado primeiro na Hulu – em todo material de divulgação dos EUA ele se apresentou como "um filme original Hulu". E tanto lá como em território estrangeiro, a Netflix resolveu adicionar o filme ao seu catálogo no mesmo dia da estreia, 18 de outubro, assinando com sua distribuição e traduzindo o título. Aqui, ele chegou como "Contato Visceral", o que, particularmente, casou melhor com a proposta do que o original.

Já assistiu ao filme? Continue o texto e leia a partir do último tópico. Não assistiu ainda? Em uma leve crítica: não gaste seu tempo, ele não leva quase a lugar nenhum. No texto a seguir, conto a história e a explicação em uma tacada só.

O plot


Will (Armie Hammer), o protagonista, trabalha em um bar e passa a maior parte do tempo conversando com seus colegas frequentadores e parceiros de bebida. Uma noite, vemos uma briga acontecer e, como resultado, um de seus amigos chamado Eric (Brad William Henke) é cortado no rosto. Um grupo de adolescentes que também estava por lá filma a cena toda, até o tumulto se dispersar. Um dos jovens esquece o celular no estabelecimento, que mais tarde é encontrado por Will.

Horas depois, ele começa a interagir e responder mensagens com um dos pivetes, destravando a tela via reflexo da gordura dos dedos – um toque nojento, mas genial – e é encorajado a fuçar no celular. Como é de se esperar, o que ele encontra não é nada agradável.

(Des)enrolação


Como acabei dando a pista anteriormente, Wounds é bastante enrolado e não leva a (quase) lugar nenhum. Porém, ainda acho importante um resumo da história antes da explicação sobre toda a obra.

Um dos declínios na vida de Will é o seu próprio relacionamento com Carrie (Dakota Johnson). Eles moram juntos, tendo uma rotina aparentemente estável, mas eles não se dão tão bem. Ambos desconfiam da traição do outro e fica claro pra gente que Will está preso em um relacionamento tóxico – ela até caçoa o trabalho dele de barman – e ambos ficam em constante estado de aversão.

Também vemos Will desenvolver seu relacionamento com Alicia (Zazie Beetz), sua amiga frequentadora do bar, que também namora. Eles se beijam, a situação fica constrangedora e temos mais uma decepção na vida do protagonista.

Enquanto isso, a ferida no rosto de Eric está infectada, mas ele se nega a ir ao médico – pelo visto, por pura ignorância. Will volta a ver as imagens no celular e toma um susto ao encontrar um vídeo de uma cabeça degolada, que se mexe após um suposto ritual.

De uma das feridas da cabeça vemos sair uma mão, e isso espanta Will e deixa Carrie alerta. Ela também vê as imagens, nota o título de um livro ("A Tradução das Feridas") e pede para levar o celular à polícia. Ele faz uma ligação para Garrett, o jovem com o qual trocava mensagens, mas só ouve ruídos. Depois disso, Will começa a ter alucinações.

Possessão via smartphone?


Uma das alucinações acontece enquanto ele dirige com o celular em mãos, o que resulta no aparelho caindo pra fora do carro. Alguém o seguia e acaba pegando o celular de volta, mas o estrago já foi feito. Will também vê baratas em todo lugar – e isso só fará sentido no final do filme.

Pelo que dá a entender, a chamada telefônica é um clichê de filmes de terror e serve como gatilho para um ritual. Esse tal ritual é apresentado ao espectador via uma pesquisa da internet da Carrie (que assiste a um vídeo na maior vibe de O Chamado), mas a mesma fórmula também pode ser aplicada à chamada telefônica onde Will só ouve ruídos. Garrett estava estudando sobre isso, então os rituais gravados no celular deram certo. As feridas são portais entre reinos, porém, o receptáculo precisa estar vivo.

Vemos o clímax da história, pois nosso querido protagonista é demitido do emprego por entrar em uma briga, termina com a sua namorada, discute com seus colegas de bar e não tem mais pra onde correr. Ele então vai buscar abrigo na casa de Eric, que ainda está com o rosto aberto.

Ao conversarem, Will descobre que o celular foi deixado com Eric, junto da mensagem de Garrett de que haveria um presente à espera de Will. Ele então entende que os colegiais fizeram o ritual com Eric e, do nada, uma mensagem aparece no tal celular dizendo que o presente está "embrulhado em carne". Will olha imediatamente para a ferida no rosto de Eric e encara-a boquiaberto. Fim do filme.

Se você assistiu e não pegou as explicações que citei sobre a ferida ser um "portal entre os reinos", não se sinta mal: tudo é mostrado em pouquíssimos segundos e, para ler, você precisa pausar. Não se preocupe, eu resumo tudo isso (além de interpretar o filme como um tudo) no item a seguir.

Explicações viscerais


Uma das interpretações que podemos ter de toda a história é dos malefícios por estar estagnado na vida, infeliz com sua rotina e com problemas em se relacionar (com amigos, colegas de trabalho e até com um parceiro). Daí vemos uma crítica ao alcoolismo, pois o protagonista tem a bebida como fuga para conflitos nessas áreas.

Ele participa de um ritual gnóstico, ou seja, da rejeição do mundo material em favor de atingir o reino espiritual, e esta seria a forma de Will tornar-se completo.

Em um entrevista, o diretor Babak Anvari acabou dando uma pista sobre a ideia original do final aberto, porque a grande sacada do filme é a discussão em si, em questionamentos sobre o que acontece "depois". Além disso, ele também acrescenta que Will tem "uma boa dose de masculinidade tóxica" e que ele está "escondendo algo raso [...] e, conforme sua vida vira de cabeça para baixo, a sua máscara começa a cair".

No livro do qual o filme é baseado, um conto de Nathan Ballingrud, a passagem final é descrita assim:
Will sentiu a presença dela [entidade] antes que ele pudesse vê-la. Ele sentiu uma resposta para a longa dor. Ele se inclinou sobre o corpo trêmulo de Eric e aproximou o rosto. Abriu a boca sobre o ferimento, tocou os lábios nas extremidades irregulares. Me conserte, ele pensou. Por favor. Faça-me inteiro. Ele fechou os olhos, sentiu o calor ondulante. Algo se moveu contra sua língua e ele soluçou com uma gratidão aterrorizada, uma vez que sondou o céu da boca, os dentes e as bochechas. Enchendo a boca. Ele abriu mais e engoliu tudo, o sangue vazando do selo de seus lábios. Eric começou a gritar, repetidamente e em volume crescente, e uma série de baratas assustadas saíram de seus lares, subindo pelas paredes e subindo no ar com suas asas escuras e zumbidas, um enxame de espíritos ligados a Cristo.
Como disse no tópico anterior, a "ponte entre dimensões" são as feridas, que servem como portais daqui a um lugar melhor. No livro trecho do livro que Will lê, "A Tradução de Feridas", ao pesquisar na internet ele nos mostra outra definição. Em tradução livre do significado de wounds, temos "os ensinamentos do uso de um machucado para transcender barreiras físicas e conectar-se a entidades mais altas pelo poder e pela iluminação".

Já que ao longo de todo o filme vimos o mal causado pela entidade (que perseguia e prejudicava todos os envolvidos), não é de se esperar que as coisas vão acabar bem para Will. Por mim, provavelmente a fraqueza dele não seria o suficiente para aguentar "o tranco" e ele acabaria consumido pela tal entidade – ou seja, ele morreria.

O final é aberto, podendo ser interpretado tanto pelo lado positivo (Will morre e se livra de suas insatisfações na vida) ou negativo (você precisa prestar atenção demais, já que Wounds te entrega pouco pra digerir dessa experiência nojenta).

A lição que podemos tomar é: livre-se do que está te puxando para baixo.






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