Hoje (25) foi ao ar a 6ª temporada de BoJack Horseman (da Netflix), uma animação que é cuidadosa em equilibrar humor com uma abordagem de assuntos delicados, que podem variar de críticas sociais a até saúde física/mental.

Acontece que o serviço já anunciou que esta foi a penúltima temporada de BoJack, série que será concluída em 31 de janeiro do ano que vem. Em resumo, tivemos a primeira parte do encerramento – ou, como prefiro chamar, o "começo do fim". A seguir, contamos o que achamos (sem spoilers!) dos episódios.

Segurando as rédeas


Sempre pegando como gancho o final da temporada anterior, agora vemos como BoJack tirou o pé do acelerador e finalmente fará algo de concreto sobre seus vícios, indo para uma rehab. Ele ainda é assombrado por seu envolvimento com a morte de Sarah Lynn, sua colega de profissão, e somos levados a entender o papel do álcool na vida de BoJack.

Ele irá dar a volta por cima e mudará esse ciclo (com perdão do trocadilho) vicioso? Pois é, parece que teremos 16 episódios de pouco menos de meia hora para chegar a alguma conclusão. E eu adianto pra você: nós chegaremos e, ao que tudo indica, ela será satisfatória.

As tradições/As mudanças


Já na própria vinheta de abertura, a série muda seu perfil, pois eles refazem a fórmula clássica que a gente está acostumado há cinco temporadas. No primeiro episódio, a música não toca (o que dá a entender a mudança de vida dele, já que toda a vinheta se baseia no estado alcoólico dele). Em seguida, eles mudam o cenário completamente, na tentativa de deixar claro que esse é realmente o fim. Ao invés de cenas casuais mostrando a casa do nosso cavalo preferido, agora a gente tem os principais pilares das outras temporadas, remetendo uma espécie de flashback necessário para que a gente entenda o destino desta viagem.

Mesmo com a mudança da intro, BoJack não muda o seu ritmo. Nas duas últimas temporadas, eles têm dado um destaque maior a cada personagem principal (de maneira informal, tornando cada um o protagonista de cada episódio), o que é satisfatório ver como eles aprenderam bem na 5ª temporada. Tanto nessa como na atual, a animação é eficaz em fazer as coisas voltarem ao foco principal: o BoJack.

Além da introdução, uma fórmula já firmada que pegamos dos anos anteriores é usar os flashbacks pra contar o estado mental do BoJack, que quase sempre se lembra do ponto alto da sua carreira e, há duas temporadas, sobre traumas em sua vida familiar. Ao mesmo tempo, é bom ver como os personagens evoluíram a esse ponto de protagonismo. Nada fica forçado. Um subplot da Diane, por exemplo, toma um novo rumo depois da traição do Mr. Peanutbutter – e a narrativa dela é, de longe, a melhor dessa 6ª temporada. 

Voz interior


Quando comecei a assistir BoJack, eles estavam exibindo a segunda temporada. Maratonei ambas e notei, de cara, que tudo o que pensava sobre essa "antropomorfização genérica" não tinha nenhum fundamento, já que cada representação era muito bem feita. Anos depois, ainda temos essa mistura de respeito às leis básicas da natureza (quando mostram os animais fazendo “coisas de animais”) com eles agindo como representações de estereótipos de humanos.

Esse é um erro comum que notei ser o principal pré-conceito sobre quem não se empolga por BoJack, de pensar que vão ser "só animais falando". Por um lado, sendo a ponta do iceberg, não deixa de ser isso, e eles sabem muito bem escolher seus dubladores.

E as participações especiais também fazem parte. Pode ser uns cameos (tipo a Chloë Grace Moretz) e até umas "celebridades surpresa" que fazem a voz de certos personagens só pela brincadeira – exemplos: Hilary Swank, J.K. Simmons, Lakeith Stanfield, "Weird Al" Yankovic e Stanley Tucci, só na temporada atual.

É bom ver o senso de humor para auto-zoação de cada um que interpreta si mesmo, à la Simpsons. O mais curioso é, ao final, os primeiros nomes creditados são dessas tais pessoas, então não há como perder a participação deles. A graça pode ser você notar um nome conhecido e tentar descobrir seus respectivos personagens dublados (e sim, eu já voltei episódios que tinha acabado de assistir só para tentar descobrir essas identidades). 

Acerto crítico


Se temos uma certeza ao assistir BoJack é que eles vão dar um tapa na sua cara fazendo críticas não só à indústria (TV e cinema), mas também com diferentes níveis de crítica social. Isso é algo que eles sempre acertam a mão, principalmente ao tratar preconceito e feminismo.

Em um ano anterior, eles até pegaram o gancho da onda de assédios (#MeToo) de Hollywood e, desde a segunda temporada, já é uma normal tornarem-se mais contemporâneos aos acontecimentos do "nosso mundo", levando as mesmas discussões para aquele universo animado – que só parece ser mais inocente que o nosso para aqueles que não conhecem a série.

Agora na 6ª temporada também houve uma pegada política, mesmo que sutil. Acho que, inclusive, outro acerto da série é na intensidade ao tratar estes assuntos. Eles podem deixar claro que não passam pano pra qualquer um, só que uma certeza que temos é o quão fundamentais são os assuntos de drogas/vício envolvendo o protagonista. Para falar disso, porém, é quase obrigatório (a meu ver, do que seria o ponto de vista deles) passar levemente sobre um discurso sutil sobre religiões, por exemplo, o que acaba funcionando muito bem no ritmo de cada situação.

Todo cuidado é pouco


Ao longo de todos os episódios, uma certeza que temos é a existência de referências e brincadeiras discretas que, pra quem percebe vai ser fantástico e que não obriga àqueles que perdem de compreender a situação – é só um "gostinho extra" aos mais atentos.

Sempre teremos um prato cheio de referências à cultura americana e à cultura pop em geral, com destaque aos easter eggs mais recentes sendo uma crítica à sequência de filmes (citando Deadpool) e uma brincadeira criativa que serve como uma cutucada à falta de super-heroínas no cinema.

Mas não é de atos explícitos que vive o homem (ou melhor, o cavalo), pois há quase imperceptíveis trocadilhos com marcas, como nomes de hotel e até slogans clichês na internet, e nomes de celebridades com referências animais. Ri muito quando citaram Brad Bird, o diretor da Pixar que, ironicamente, não precisou de trocadilho para a brincadeira funcionar.

Falando sobre atenção aos detalhes, o time criativo merece todo o mérito por dar nome, por exemplo, a cada usuário fake em uma cena de influencers nas redes sociais. Outro exemplo é fazer trocadilho com os itens do menu de um café, o que só reafirma: se você é curioso ao ponto de saber que eles fazem esses ricos detalhes com certa frequência, a animação não vai te decepcionar.

Poderia ser melhor?


Não importa o quanto eu diga aqui, nem o que qualquer um tente defender o quanto BoJack diga que a série é boa. Se você for com a cara da primeira temporada, você vai gostar do resto.

Esta última frase só foi dita por mim ao falar única e exclusivamente de BoJack, justo por eu me decepcionar com certa frequência com séries que não vêem a hora de terminar – isso porque eu tento mentalmente excluir aquelas que não deveriam nem ter lançado sua sequência dispensável.

A sexta temporada é excelente, mas por eu ver o que eu acredito ser o ápice de BoJack na quarta temporada, eu sei o padrão alto que a série precisaria atingir. A atual foi muito boa e tudo bem não chegar a este ponto. Na quarta, por exemplo, tivemos um blocão de episódios que funcionou bem compilando "começo, meio e fim", com um episódio em especial sendo o destaque sobre a história de vida da mãe de BoJack – além do plot twist que eles conseguiram encaixar muito bem. Logo, eu sei que, das três primeiras até a quarta, a série só se superou. Na sequência, ela deu uma baixada de bola.

Tanto nesta sexta como na quinta, vi funcionar bem esse “arco encerrado” que começa e termina na temporada, dando continuidade ao que a gente viu na anterior. E, de novo, saber que a série já atingiu seu ponto alto não é um problema, tanto que fica claro que eles nem tentam reprisar esse clímax de nenhum jeito.

Por isso, terminei a sexta sem achá-la perfeita. Se você já assistiu às outras, vai gostar. Ela não tem uma conclusão, tanto que o último episódio nem tem cara de SER ÚLTIMO de temporada – o que é completamente justificável, já que eles confirmaram a próxima "metade" pra ir ao ar em 31 de janeiro. Minha dica é: maratone e aguarde. Temos três longos meses de espera.






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