Black Mirror: Bandersnatch é o primeiro lançamento interativo da Netflix. Trate-o como um episódio longo componente da série ou um filme-jogável independente, ele é um grande passo para deixar o usuário ainda mais imerso no conteúdo da plataforma.

A história básica, quer você queira, quer não, traz a vida de um jovem programador, em plenos anos 1980, em busca de realizar seu sonho de lançar um jogo baseado em um livro que segue a mesma mecânica de "escolha a sua história". A partir daí, somos levados a uma jornada que inclui diferentes linhas temporais e outras ferramentas emprestadas de alguns clássicos sci-fi.

Assim como em outros episódios, desde o início temos a reflexão "será que temos controle sobre o que é a escolha certa?". Isso, claro, funciona tanto para o "jogo" apresentado como para o cotidiano do espectador bom entendedor.

Assistindo e selecionando certas opções, suas escolhas podem afetar da trilha sonora ao roteiro – ou seja, quase ninguém vai ver a mesma "história" da primeira vez. Entenda a seguir como funciona a mecânica e o que isso significa dentro do contexto de Bandersnatch.

Variáveis


A aparente falta de liberdade de escolha – ou "free will", como retratado no episódio –, com as obrigações da própria plataforma de seguir por determinado caminho, torna-se uma forma de a Netflix te mostrar quão rico é o universo. Isso também nos faz ter melhor noção do cenário da narrativa do protagonista, bem como a profundidade dada para cada personagem.

Matematicamente falando, são centenas de formas de chegar aos cinco finais principais – ou 12 "não definitivos", de acordo com o produtor da série em entrevista ao THR – e isso implica em "roteiros finitos" para cada espectador. Por mais específico que seja seu caminho, você sempre chegará às mesmas variáveis de conclusões da história. Mesmo assim, há cenas gravadas que muitos usuários nunca chegarão a assistir.

Uma prova disso é um incrível fluxograma (aqui, com alta resolução e spoilers) criado por um usuário no Reddit que mostra possíveis caminhos que o espectador pode seguir e as respectivas conexões com o resto da história:

Esquerda: fluxograma com parte das possibilidades de narrativa. Direita: detalhe em melhor resolução
Ao prever o buzz que o episódio criaria na internet, a Netflix fez a lição de casa. São justamente nas discussões com amigos que você acaba descobrindo outras sequências extras – afinal, raramente você fará as mesmas escolhas que outra pessoa.

Algo que também foi descoberto pela fanbase é o diferente algoritmo apresentado para cada perfil do serviço. Enquanto certos usuários receberam o comando de voltar e refazer certas escolhas ao chegar em um dos finais, alguns tiveram que se contentar com os finais "não conclusivos" e foram forçados a rever o episódio desde o início em certas situações (claro, caso quisessem ter acesso a conteúdo que não fizesse parte da narrativa que escolheram).

O algoritmo também está relacionado a qual episódio de Black Mirror foi sugerido para assistir ao final de Bandersnatch: alguns receberam San Junipero, outros Nosedive (ambos episódios da 4ª temporada), por exemplo. São temáticas diferentes que ainda possuem relação direta com este episódio imersivo. De qualquer maneira, o algoritmo de sugestões varia de perfil para perfil, independente do produto exibido ser "muito black mirror" ou não.

Além de todos esses caminhos, contidos no próprio episódio, a Netflix deu um passo além e criou um conteúdo extra aos fãs mais malucos.

Por própria conta e risco


Entregando um prato cheio aos fãs mais loucos de Black Mirror, foi feito um ARG, ou Alternate Reality Game (traduzido literalmente como "jogo de realidade alternativa") dedicado ao episódio, que trata-se de um conteúdo multimídia criado para séries ou filmes, como podemos ver no vasto universo de Cloverfield. Mas se não tivemos acesso a nenhum link na própria plataforma, onde está essa extensão do episódio?

No final definitivo, com os créditos, podemos ouvir uma certa frequência, que parece uma mistura de internet discada e o som de televisão fora do ar. Acontece que alguns redditors pegaram a pista e afirmaram tratar de uma gravação de 8 bit em fita cassete, assim como jogos antigos que funcionavam no mesmo sistema.

Fazendo o caminho reverso, trata-se de um arquivo de 19 segundos que, se convertido para o formato "wav" (o mesmo tocado por qualquer Windows Media Player), pode ser "jogável" em um emulador de consoles antigos como o FUSE. Ao reproduzi-lo, na tela temos um QR Code (muito bem programado para simular "má qualidade" do arquivo, por sinal) e escaneando-o, somos redirecionados ao site fictício da Tuckersoft, desenvolvedora do game em Bandersnatch.

Na lista de jogos, podemos dar atenção especial ao selo de "cancelado" de Bandersnatch. Na parte inferior da home, temos a explicação – que é cânone a apenas uma parte dos múltiplos finais: Um acontecimento mórbido levou a empresa a fechar as portas antes do lançamento antecipado de Bandersnatch, um título ambicioso em desenvolvimento pelo agora infame Stefan Butler.
Captura de tela do Nohzdyve, testado e aprovado pela equipe InfoGeek
Clicando nos games, percebemos as descrições criativas para cada título, todas muito bem traduzidas. Porém, as páginas com atenção redobrada (por enquanto) são as de Nohzdyve e Metlhedd. Não por acaso: acessando Nohzdyve, há a opção de baixá-lo e ele pode ser jogado no mesmo emulador FUSE citado acima. A gameplay é simples e é a mesma mostrada no próprio Bandersnatch, na introdução de Stefan ao escritório da empresa.

Outro detalhe é um banner do site de classificações RateMe, que é extensão de outro episódio, Nosedive. Por fim, no site também há uma área com um anúncio "da época" recrutando interessados que, se clicado, redireciona às vagas de emprego (de verdade) da própria Netflix.

Além destas referências externas ao universo da série, há easter eggs de diversos tipos ao longo do episódio. 

Universos conectados


Bandersnatch é um dos episódios com mais referências de toda a série. Um thread de discussão (no Reddit, claro) mostra as encontradas pelos usuários mais atentos. Por fim, confira-as, traduzidas e contextualizadas a seguir:

"The National Anthem" (T1E1)
  • Banner de notícias na TV que antecede o veredito do crítico gamer diz "Former PM Michael Callow wins Celebrity Bake Off", falando sobre o primeiro ministro.
  • "Princess Susannah Starts School" no jornal The Sun mostrado na tela.
"Fifteen Million Merits" (T1E2)
  • No mesmo The Sun do caso acima, temos "Hot shots talent show to start a new series", falando sobre o protagonista que conseguiu o programa próprio após o show de talentos.
"Be Right Back" (T2E1)
  • Artigo do jornal fala sobre uma "máquina de amor futurista" sendo projetada pela "BRB software".
"White Bear" (T2E2)
  • Símbolo pelo qual Stefan fica paranoico é visto repetidas vezes no episódio.
  • Site da desenvolvedora Tuckersoft possui um jogo chamado "White Bear".
"The Waldo Moment" (T2E3)
  • Banner de notícias diz "Liam Monroe enters Buckingham Palace"
"Nosedive" (T3E1)
  • Jogo criado por Colin é "Nohzdyve", pronunciado da mesma forma que o nome do episódio.
"San Junipero" (T3E4)
  • Stefan vai para a Saint Juniper Medical Facility para fazer terapia.
"Hated In The Nation" (T3E6)
  • O mesmo banner de notícias citado acima também diz "Granular to unveil prototype 'pollinator drone'", falando sobre a abelha robótica.
"USS Callister" (T4E1)
  • Artigo do jornal comenta que o "terceiro capítulo de Space Fleet foi ao ar" e também que o "elenco de 'Space Fleet' se reunirá nos Emmys".
  • Site da Tuckersoft tem um jogo chamado "Valdack’s Revenge", relacionado ao inimigo no episódio.
"Metalhead" (T4E5)
  • Robô é mostrado diversas vezes em Bandersnatch no jogo chamado "Metlhedd", sendo a mais marcante das vezes em um pôster no escritório da Tuckersoft.
"Black Museum" (T4E6)
  • O protagonista Rolo Haynes trabalhava no Saint Juniper Hospital, nome similar à clínica que Stefan frequenta – que, em si, já faz referência ao título "San Junipero".




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