Em Simulation Theory, álbum do Muse lançado hoje, somos levados a uma viagem no tempo, tanto ao passado como ao futuro, conseguindo elaborar o meio-termo perfeito entre uma atmosfera nostálgica e um ambiente tecnológico totalmente sci-fi. Porém, ter um conceito criativo não é sinônimo de boa evolução musical. Aqui você confere um apanhado deste lançamento com uma análise faixa-a-faixa.

O oitavo álbum da banda te carrega para uma jornada mais densa que de costume. De cara, podemos sacar a pira cibernética cheias de teorias sobre o futuro (assunto abordado com frequência pelo frontman Matthew Bellamy) e como as máquinas se tornarão contra seus criadores – em Algorithm "This means war / with your creator". Inevitável compararmos essa abertura à temática de produtos culturais recentes como a série Westworld, onde mentes artificiais tomam consciência e dão início a uma revolução. No clipe da música, isso também fica bem claro.

Com The Dark Side o assunto "consciência" ganha um rumo muito mais sombrio e passamos a tratar de doenças mentais ("You'd be afraid if you could feel my pain") e o desejo de libertar-se (no refrão, "Break me out, break me out"). Máquinas com consciência também poderiam ter depressão como nós? 

Pressure, como revelado por diversos usuários do Reddit que conectaram tweets de Matthew, é um recado direto do músico aos fãs da banda e toda a cobrança recebida por "não ser como o Muse de antigamente". Vemos isso de maneira explícita nos versos "Let me get off the ground / To you I'm no longer bound", pois Matt está disposto a decolar com a banda, independente das críticas direcionadas a este novo rumo. 

Propaganda lembra a mesma pegada de voz distorcida que pudemos ouvir no penúltimo álbum da banda, nas músicas Madness The 2nd Law: Unsustainable. Tanto nesta como em Thought Contagion há críticas à mídia, disseminação de ideologias, consciente coletivo e podemos até fazer um paralelo com a popularização de fake news. Na sequência, vemos a resposta, com a tentativa de lutar contra estes males da sociedade, em Get Up And Fight (literalmente "We've gotta get up and fight") e Break It to Me ("I can handle the truth").

Outra busca pela verdade segue com a "marchada" Blockades, citando "Life is a broken simulation / I'm unable to feel I'm searching for something that's real". Uma revolta contra o sistema segue em Dig Down, citando situações de opressão por forças maiores ("When you're close to the edge with a gun to your head") e a importância da união para aqueles que enxergam a verdade ("When friends are thin on the ground and they try to divide us"). Tenha esperança, cave fundo.

Em uma maneira de arrematar o conceito de criador e criatura citado na primeira música, The Void declara que depende do indivíduo realizar as mudanças propostas ("You are the coder and avatar") e reforça a vontade de provar aos opressores (que pensam ter a vitória garantida) que eles estão errados ("They'll say, no one can see us / That we're estranged and all alone" e no refrão, repetidas vezes afirmando "They're wrong").

A edição "super deluxe", a padrão do álbum no Spotify, também acompanha versões alternativas das canções. Destas, podemos destacar a acústica de Something Human (sem os sintetizadores, o propósito é outro) e Pressure tocada por uma banda marcial (um bom acréscimo aos instrumentos de sopro da original).


Em uma análise de letras, é impossível dizer que não há consistência por parte da banda. Há anos, o grito contra o sistema marca as canções do trio – talvez mais forte após Uprising. Mas agora não temos mais aquele Muse que brincava com corais, orquestras e instrumentos gigantes, que conseguia harmonizar peças clássicas a riffs de guitarra. Os elementos principais da banda ainda estão lá, porém, na maior parte das vezes, são engolidos por sons eletrônicos.

Desde 2003, a banda lança montagens de bastidores dos álbuns gravados (vídeos que te levam para dentro do processo criativo do trio) como The Resistance, Absolution e 2nd Law. Nestes casos, pode-se perceber a ousadia da banda, criando linhas de melodia que muitas vezes são takes alternativos para trechos famosos de músicas e, às vezes, arriscando um novo instrumento, como Manson MB-1, a guitarra com touchpad de Matthew. Porém, caso resolvam lançar um documentário mostrando os bastidores de Simulation, o que seria exibido? Sintetizadores, softwares genéricos e pads de bateria eletrônica? 

Isso é um reflexo da evolução da indústria musical (que raras vezes preza por um som mais orgânico) e até da própria mudança de interesse do público. Porém, além de evolução tecnológica no aspecto musical, também temos um outro ponto importante que merece ser destacado: a estética de Simulation Theory.

Ao começar pela capa (arte feita inteiramente em um iPad), pode-se notar uma leve alusão às artes de Drew Struzan, ilustrador de filmes clássicos e capas de álbuns que ajudaram a estabelecer o "visual marcante" dos anos 1980.

Tratando-se de clipes, a evolução da banda deve ser reconhecida, pensando na criação da atmosfera que o novo álbum trouxe. Infelizmente, a ideia não foi seguida a risca. Nas últimas 18 horas, eles lançaram 14 vídeos no YouTube. Destes, três são clipes – incluindo mais vídeo estrelando Terry Crews – e os outros 11 são lyric videos (que, pelo menos, seguem a mesma estética). Claramente esse padrão não foi pensado desde o início. Em Break It to Me e Algorithm vemos uma tentativa desastrada de seguir o cenário/contexto de Pressure – que, por sorte, funciona por conta própria.

Um exemplo de conceito feito do jeito certo é ...Like Clockwork, álbum do Queens of the Stone Age lançado em 2013, que foi divulgado junto a uma série de animações que seguiam uma mínima lógica narrativa. Detalhe: isso não impediu a banda de lançar clipes live action com os próprios integrantes, sendo uma boa adição ao material já criado. Muse tinha conteúdo, dinheiro e uma boa ideia – mas pisaram na bola.

Dig Down, lançada em maio do ano passado, foi o primeiro single de Simulation Theory. Na época, estava clara a evolução da banda seguindo a linha de Drones (de 2015). Foi somente em fevereiro de 2018 que Thought Contagion foi ao ar e tivemos uma palinha do que se tornaria Simulation. Policiais, placas de neon, videogames e referências ao clipe de Thriller, com zumbis dançantes, acabaram resumindo o restante do universo criado por eles.

Junto de Stranger Things e Jogador Número 1, nota-se o sucesso de produtos culturais que tentam reviver a estética oitentista. Apesar de, no mundo da música, referências a décadas passadas ser uma característica trivial para bandas mais novas, a pira explícita de Muse foge de simples referências e parte para uma quebra total no gênero.

Goste ou não, eles mudaram.




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