Tranquilidade lunar

O termo "tranquility base" é a definição dada ao local do primeiro pouso na Lua feito pelo homem, em 1969 – a parte do "hotel and cassino" é uma pira autoexplicativa de Alex Turner e seus amigos. Mesmo com tradução fácil, entender o conceito do novo álbum do Arctic Monkeys, lançado hoje, é uma tarefa longe de ser simples. Da mesma forma, alguns podem ouvir o disco e afirmar que Tranquility Base Hotel & Casino é um conjunto de canções que conversam entre si, dispensando "fazer sentido" ou "te levar a algum lugar".

Aí está o divisor de águas. Por mais que você tenha o ímpeto de atribuir um significado ao ouvir (e se emocionar) com as músicas da banda, não é isso que vai acontecer aqui. Tranquility Base é um conjunto de canções em um pacote único, encorpado, que simplesmente "está lá", para ser apreciado por completo.

Na mesma sintonia?


Dizer que Alex "errou a mão" é um equívoco. Se a intenção era redirecionar a banda, criando um agregado consistente de músicas, o trabalho foi bem feito. Por isso, temos a mesma atmosfera ao transitar de uma canção para outra. Você não tem nenhum "desafio" a ouvi-lo, pois não há quebras de tempo propositais, nem pausas. Tudo acontece na mesma sintonia, no mesmo plano.

Esta não é uma tentativa de emplacar singles ou ter visibilidade comercial (os macacos do ártico estão longe disso!). Pelo contrário: com exceção da faixa-título, é impossível escolher somente uma música para dar play e cantar junto. Diferente de AM, álbum que transborda hits, lançado pela banda há pouco mais de quatro anos, aqui você não vai esbarrar com uma música que te fisgue na primeira ouvida pelo riff de guitarra ou pelo "refrão dançante".

É como ter o impulso de colocá-lo para tocar enquanto você ocupa a mente com outra coisa. A ideia de lounge music se aplica bem ao um dos possíveis resumos de Tranquility Base, pois toda a atmosfera te transporta para esse "hotel lunar", um local pacífico e sozinho no espaço.

Parte dessa "solidão" é suportada pela origem de parte das canções, já que elas foram compostas inicialmente por Alex Turner (sozinho) em seu piano. Após o vocalista negar que tratava-se inicialmente de um álbum solo, como havia sido afirmado pelo guitarrista, podemos imaginar como um solo do gênero poderia ser bem recebido – além disso, com o projeto paralelo The Last Shadow Puppets as músicas de Alex tem dado bem certo, o que lembra bem a atmosfera deste álbum.

Outro ártico


As críticas informais que o TBH&C recebeu desde o vazamento na íntegra, semana passada, levantaram um possível argumento: e se o disco tivesse sido lançado antes de AM, em outra fase dos Arctic Monkeys? Isto é, será que faria diferença, pela perspectiva do público, se ele viesse antes do rock misturado de 2013?

Sinceramente, não. Este "álbum experimental" receberá a mesma atenção do que os outros cinco, mesmo com a divulgação sendo feita de forma pouco convencional (pois, sem criar expectativas, do dia para noite um teaser foi ao ar, anunciando o lançamento junto de imagens dos integrantes "devidamente trajados" nas redes sociais da banda). O contraste em comparação ao último disco causou choque e dividiu opiniões – mas o mesmo também aconteceu em 2013. Acontece que, agora, o público parece confuso.

Arctic Monkeys está menos roqueiro. Nos resta saber: TBH&C é um marco para mudança definitiva do estilo da banda ou será esta somente uma das muitas fases do quarteto?

Aos fãs da banda:


Não ouça este álbum esperando um momento de clímax, como a hora perfeita para pirar (como você provavelmente faz ou deveria começar a fazer ao ouvir When The Sun Goes Down), nem cantar o refrão de um hit em voz alta junto ao seu melhor amigo (como você deve fazer ao ouvir Fluorescent Adolescent). Ouça Tranquility Base Hotel & Casino por completo, com a mente ocupada ou não, e aprecie-o.

E essa é a vida de Arctic Monkeys. Um jovem que cresceu indie (Whatever People Say), enlouqueceu e ficou um pouco melancólico (Favourite Worst Nightmare), amadureceu e virou "pegador" (AM) e agora reconhece: é a hora de levar a vida com calma – de preferência, num lounge de hotel.

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