Vermelho. Azul. Amarelo. Verde. O que temos ao juntar cores tão distintas? Os Defensores! A nova série da Netflix, em parceria com a Marvel, resgata os heróis de suas temporadas solo para colocá-los no mesmo barco. Em oito episódios, com uma duração média de 45-50 minutos cada, a trama que junta Matt Murdock/Demolidor (Charlie Cox), Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Colter) e Danny Rand/Punho de Ferro (Finn Jones) é meio arrastada. Mas não falha em deixar interessante a reunião de personagens com estilos tão distintos.

Diferentemente de outros grupos de heróis do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU, na sigla em inglês), como os Vingadores, esse não tem glamour nem holofotes. A missão individual de cada um é defender seu pedaço - Hell's Kitchen e Harlem, no caso de Demolidor e Luke Cage -, resolver questões do passado, no caso de Danny Rand, ou, para Jessica Jones, simplesmente seguir a vida. Ao se juntarem, a contragosto, a missão cresce: defender Nova York. Na hora das tretas, o que rola é mais briga de rua do que algo espetacular, como vimos em Guerra Civil. E isso é ótimo, já que a proposta do universo Marvel/Netflix é justamente essa.


Esteticamente, a série é impecável do começo ao fim. O que merece destaque especial é a fotografia, dirigida por Matthew LLoyd. Isso porque cada episódio traz cenas com ângulos inusitados e um jogo de luzes e paleta de cores espetaculares. É que cada personagem possui a sua paleta, algo já explorado nas temporadas solo, de forma que se misturam conforme um interage com o outro. Tudo isso sem ficar brega nem cansativo. Parabéns ao envolvidos.

Em relação ao roteiro, a série tem seus altos e baixos. É interessante acompanhar no começo a forma como a trama individual de cada um converge para a empresa Midland Circle - o "epicentro de tudo". Danny seguia os rastros do Tentáculo, Luke estava de olho em algo estranho que vinha acontecendo no Harlem, Jessica investigava um caso de desaparecimento e acabou tendo problemas com a polícia, o que levou Matt a intervir. Em Midland, os vigilantes se encontram e precisam lutar juntos, mesmo sem se conhecer (tirando Luke e Jessica, que já tinham um passado juntos). 

O relacionamento entre os quatro é explorado de maneira orgânica, de forma que a discórdia e o consenso entre eles é bem palpável. É quase como um grupo de faculdade montado pelo professor a contragosto dos alunos tentando fazer dar certo. 

Já o desenrolar da relação do grupo e de suas ações se dá de maneira arrastada lá para o meio da série. É quase certeza que isso vai arrancar, de novo, suspiros de impaciência de vários fãs. Esse "passo lerdo" da narrativa das séries da Netflix de heróis incomoda muita gente desde sempre. Mas novamente a equipe criativa escolheu contar essa história desse jeito, por mais que a série tenha menos episódios - que por sua vez estão mais longos. Paciência, né.


O problema principal, assim como em várias outras produções da Marvel, está nos antagonistas. Na série, os vilões são os braços do Tentáculo, uma organização milenar e maligna que já havia sido explorada na segunda temporada de Demolidor e na primeira de Punho de Ferro. A intenção nisso foi de amarrar a trama das outras séries. Conforme a história flui, você percebe que a entidade estava envolvida em tudo que aconteceu no universo Marvel/Netflix. Dessa forma, somos reapresentados a antigos vilões - Madame Gao (Wai Ching Ho) e Bakuto (Ramon Rodriguez) - e conhecemos três novos: Murakami (Yutaka Takeuchi), Sowande (Babs Olusanmokun) e Alexandra (Sigourney Weaver), que tem como braço direito Elektra Natchios/Céu Negro (Elodie Yung).

Presente desde o primeiro trailer da série, Alexandra prometia ser uma baita vilã, principalmente por conta da atriz que a interpreta. Só que não foi bem assim. Mesmo sendo a líder entre os braços do Tentáculo, Alexandra não faz muita coisa de fato. Sua participação se resume a aparições e diálogos que deixam implícito como ela é poderosa e temível. Mas em nenhum momento ela mostra seu poder. Faltou, com perdão pelo trocadilho, substância para a personagem.

Essa falta de carisma, infelizmente, se estende para os novos vilões introduzidos na série. Por mais que Madame Gao carregue um pouco mais de complexidade, o que permite que ela continue sendo uma personagem interessante, a motivação do grupo permanece rasa em todos os episódios. Em nenhum momento a história leva algum além de sua própria caricatura, como aconteceu com Wilson Fisk na primeira temporada de Demolidor. No final das contas, são vilões clichês que querem continuar sendo imortais e dominar o mundo.

"Venha como você estiver, como você era, como eu quero que você seja, como um amigo, como um velho inimigo”, diz a música Come As You Are, do Nirvana, usada no primeiro teaser da série. Assistindo os oito episódios, você entende como essa ideia está presente na dinâmica dos Defensores. Nessa mistura de passados traumáticos e estilos distintos, o grupo de heróis de rua não falha em ser fascinante para os espectadores. Pena que tudo isso foi para enfrentar uma ameaça um tanto clichê e mal resolvida.

Colaboraram Letícia das Neves e Victor Bianchin




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