Anos 90. Tempo do tamagotchi, da internet discada, dos filmes adolescentes de John Hughes e de séries televisivas que assistimos até hoje - incluindo os lendários Power Rangers. Vermelho, Preto, Rosa, Azul, Amarelo. Tais cores diversas foram a chave para a identificação dos jovens do mundo com os heróis do seriado. Mighty Morphin Power Rangers estreou nas TVs americanas em 28 de agosto de 1993, virando um sucesso entre o público infanto-juvenil logo de cara. Até hoje possui uma legião de fãs tanto dessa época como das mais jovens, pois, a cada era, novas equipes de Rangers são apresentadas. As tecnologias da época foram uma inovação para que a série fizesse tanto sucesso. Além dos grandes movimentos de lutas e acrobacias, haviam trabalhos com os efeitos visuais, tanto na maquiagem e direção de arte como nos computadorizados. 

Ano 2017. Os jovens da década de 90 que se maravilharam com Power Rangers podem ter um momento de nostalgia - um novo filme dos heróis está em cartaz nos cinemas ao redor do mundo. Jason, Zack, Kimberly, Billy e Trini estão de volta com novas caras e uma nova trama ambientada para os tempos atuais. Fazer um remake de obras tão clássicas é um trabalho árduo e que proporciona aos fãs um pouco de receio, já que o erro de se tornar algo miserável está no degrau ao lado do sucesso - apenas precisa pisar no lugar certo. Contudo, o filme de Dean Israelite pousa na excelência. 


A Trama e sua vilã


O longa nos mostra o começo de tudo, quando já na Era Cenozóica os Rangers do passado impediam Rita Repulsa (Elizabeth Banks) de seus planos maléficos, assim como a proteção dos morfadores (que no longa eles chamam de “moedas”, já que na série original também possuíam elas engatadas no morfador) até os tempos atuais. A pequena cidade de Alameda dos Anjos, lugar criado para a série em 1993, continua sendo o local de convívio dos Rangers. A trama vivida na cidade é desperta com uma curiosa placa de cristal descoberta pelos jovens e, posteriormente, a nave que se encontram Alpha 5 (Bill Harder) e Zordon (Bryan Cranston).

Diferentemente da série, o enredo é bastante construído para o público, mostrando a insegurança - mesmo sendo pouca - dos Rangers ao descobrirem algo novo e excêntrico. Zordon e Alpha 5 colocam os garotos a par de toda a situação, fazendo-os treinar (mesmo sem saberem morfar) até a chegada de Rita. É uma trama muito envolvente, possuindo seus picos de comédia e drama ao mesmo tempo que abrange suas cenas de ação e suspense. Mesmo levando uma pegada mais adulta do que a série, o aspecto infanto-juvenil também é perceptível em alguns momentos do longa, não retirando completamente a essência do seriado dos anos 90.


Os Rangers precisam enfrentar uma vilã incrivelmente forte e que rouba o destaque do resto do filme com maestria. A construção de personagem combinada com a atuação de Elizabeth Banks dá um resultado ótimo. Rita Repulsa é uma antiga ranger verde renegada por seus demais colegas na Era Cenozóica, após ela desejar para si o cristal zeo, e impedida de tal feito. Após eras imóvel no fundo do oceano, Rita retorna em busca de seu querer, e encontra um mundo completamente diferente. Os poderes de Repulsa envolve seu cajado mágico de ouro e sua moeda-morfador de ranger verde. Para ajudá-la na missão, ela inicia uma busca por ouro, a fim de invocar o poderoso monstro Goldar, além de invocar seu exército de criaturas feitas de rochas. 

Banks está fantástica como vilã. Suas expressões maléficas vão combinando com suas cenas cômicas, dando um ar não tão sinistro a ela. Sua caracterização é bastante diferente da série original, sendo mais poderosa e ativa do que a Rita de 1993. 


Os Power Rangers


A equipe de rangers é composta por cinco integrantes, assim como a série original. Cada um tem uma personalidade aparente muito forte, possuindo aparências físicas, temperamentos e interesses diferentes. Seus intérpretes possuem uma atuação mediana, porém executam o trabalho na altura que seus personagens pedem.

Jason (Dacre Montgomery), o ranger vermelho, é um estudante jogador de futebol americano que se mete em encrenca logo no começo do filme. O garoto é afastado do time de futebol e posto em monitoramento, assim como colocado em detenção escolar pela tarde. Seu conflito maior é com sua identidade, que cresceu sendo o menino popular prodígio e agora não se vê mais sendo responsável. A construção do personagem é toda voltada para o pai do garoto, que o oprime, querendo seu “garoto nota dez” de volta. Mesmo sendo o clichê de líder bonzinho, Jason também mostra que mesmo o responsável pelo pilar principal da equipe tem seus problemas.


Kimberly (Naomi Scott), a ranger rosa, é muito mais do que a beleza que mostra. Como uma das garotas populares da escola de Alameda dos Anjos, a personagem transborda uma aura forte e determinada, mostrando seu grande girl power durante a trama. É aventureira e não passa nem perto de ser a patricinha americana. O fato da heroína não precisar se apoiar no estereótipo agradou completamente o público que, na primeira exibição do primeiro corte do filme, preferiu que a cena de beijo entre Kimberly e Jason fosse retirada, para dar mais visibilidade a ranger - ela não precisava se apoiar em um beijo para ter o destaque que precisa. Um grande acerto para o filme.


Billy (RJ Cyler), o ranger azul, é outro diferencial para o filme.  Ele é o motivo para que os meros cinco jovens escolhidos virem os rangers - leva uma espécie de detonador para explodir um rochedo específico e acabam encontrando o cristal envolta por essa camada de rocha. Um personagem autista em um filme de super heróis tão conhecido é incrivelmente importante para que os jovens com essa especialidade consiga se identificar e se aproximar mais do longa.  Billy recebe bastante destaque durante o filme, sendo um dos personagens mais queridos do público. Seu jeito nerd e um tanto tagarela é misturado com seu problema de autismo que o filme trata com seriedade.

Trini (Becky G), a ranger amarela, é a personagem que desperta mais curiosidade dentre os cinco principais. Ela é misteriosa e difícil de lidar no começo, porém aos poucos vai se libertando de todas as camadas de proteção para que seus amigos Rangers possam a conhecer mais a fundo. É tímida, sozinha e mais radical. Logo após a produção do filme estar quase concluída, os rumores de que Trini seria lésbica foi se espalhando pelos sites de notícia. Mesmo sendo um diferencial e talvez uma jogada de marketing para o filme, o fato de uma Ranger ser abertamente do meio LGBT é incrível. A importância de uma heroína lésbica nos tempos atuais é crucial para a representatividade e aceitação de algo que deveria ser considerado comum. A luta da ranger para vencer o preconceito e privação de seus sentimentos e desejos é proferido por ela em uma conversa com seus colegas de equipe. Mesmo que nos Estados Unidos o índice de homofobia não seja tão alto como no Brasil - a cada 28 horas um caso de homofobia é registrado no nosso país - o preconceito é grande.


Zack (Ludi Lin), o ranger preto, possui uma personalidade excêntrica e louca. É um personagem menos desenvolvido do grupo, mas mostra ser um garoto responsável e galanteador. Um tanto charmoso, ele é um gatilho para a equipe ao mostrar entusiasmo e transmitir energia aos demais. Tem uma grande responsabilidade em suas costas: cuidar de sua mãe doente e solteira. Conseguir compartilhar seu tempo com estudos, lazer e proteção de sua mãe não deve ser uma tarefa fácil para um jovem, mostrando um lado do extrovertido ranger preto que muitos passam na realidade. As responsabilidades de adultos que crianças e adolescentes precisam lidar tão cedo na vida.


Conclusão



Indo além de um filme de ação, a obra é com certeza um momento de aprendizado. Em cada ranger podemos viver um conflito real e humano dentro deles, que é tão comum na nossa sociedade. Podemos nos identificar muito com cada, e isso é o que torna os personagens um tanto carismáticos, além de mostrar que esses heróis poderosos podem ter suas simples fraquezas. Cinco jovens que não conseguem se encaixar na vida atual, e juntos descobrem uma gama de possibilidades para seguir em frente, compartilhando experiências e auxílios juntos.

Carregados de efeitos especiais, picos de sentimentos diversos e uma inovação arriscada, de forma geral, Power Rangers conseguiu fugir do comum dos filmes remakes atuais. O longa foi feito não especialmente para os fãs - que conseguiram achar nesse período no cinema uma lembrança dos tempo de criança - mas sim para apresentar aos jovens de 2017 um pouquinho das aventuras dos heróis coloridos. Com êxito, Power Rangers: O Filme vai além de de um filme de aventura: é uma apresentação dos conflitos da nossa sociedade atual por meio de uma criação passada totalmente renovada com sucesso.




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