Donzelas em perigo? Nem tanto. Ou melhor, elas até se metem em várias enrascadas, mas são elas também que salvam a si mesmas e/ou resolvem os conflitos da trama. Estaria Hollywood finalmente dando mais espaço para o girl power em seus blockbusters (filmes de grande orçamento e bilheteria)? A resposta é sim! Porém, essa abertura acontece de maneira (bem) lenta. E ainda existe muito trabalho pela frente.

Veja, por exemplo, os lançamentos de 2016. Uma jovem que decide velejar pelo Oceano Pacífico, acompanhada de um semi-deus. A coelhinha do interior que tenta a sorte na cidade grande para realizar seu sonho: ser uma policial. A peixe com problemas de memórias que também tenta a sorte, porém nos sete mares, para encontrar seus parentes perdidos. Um grupo inusitado de especialistas e profissionais que precisam salvar Nova York de fantasmas. A marginalizada da sociedade intergalática que se torna um dos principais pivôs da missão da Aliança Rebelde que mudou tudo. 

É difícil negar que ano passado foi um marco na história do cinema mainstream, já que trouxe diversos títulos com personagens femininas ocupando ou a posição principal ou coadjuvante de considerável destaque. Moana, Zootopia, Procurando Dory, (as) Caça-Fantasmas e Rogue One são apenas as produções de maior destaque de um ano específico. Mas essa onda não começou, necessariamente, em 2016. Vem de bem antes.


Um estudo da Universidade do Sul da Califórnia, coordenado pela pesquisadora Stacy Smith, traz dados interessantes sobre isso. Seu levantamento aponta que nos 700 filmes de maior bilheteria nos EUA entre 2007 e 2014, cerca de 30% das personagens com falas eram interpretadas por mulheres. Dessas 700 produções, 11% tinham elenco considerado equilibrado ou mulheres interpretando metade das personagens com falas. São dados decepcionantes? Sim. O estudo, inclusive, possui como uma espécie de tema a falta de diversidade em Hollywood. Mas, analisando do prisma "copo meio cheio", pode-se afirmar que hoje temos uma cena no cinema mainstream bem melhor, no quesito representatividade feminina, do que no século passado.

Durante décadas e mais décadas, as equipes criativas por trás da produção dos filmes deixaram suas personagens femininas relegadas ao papel de moças vulneráveis que precisavam ser salvas pelos heróis. Isso ainda acontece hoje em dia? Sim. Aliás, a lentidão do processo de mudança chega a ser enervante. Mas de filme a filme, as meninas e mulheres das tramas ficam menos passivas, ao passo que ganham mais complexidade e desenvolvimento. E mais espaço, também, para papéis principais, como já destacado.

Em entrevista ao jornal O Globo, o presidente da RioFilme Sérgio Sá Leitão comenta que o mercado do cinema finalmente percebe que a mulher desempenha um papel decisivo na engrenagem do próprio cinema. E os dados respaldam seu apontamento: em 2012, o longa Jogos Vorazes, que trazia Jennifer Lawrence interpretando Katniss no papel principal, arrecadou mais de US$ 670 milhões de bilheteria. Outras produções contemporâneas, como Branca de Neve e o Caçador, Prometheus e Valente ficaram no mesmo patamar, abocanhando uma bela fatia de arrecadação em bilheterias.


Nesse cenário todo, a atual novidade é que quando se diz respeito a abrir espaço para que personagens femininas ocupem as linhas de frente das tramas, a frequência aumentou. E a abordagem mudou. De fato, são passos de bebê. Mas ao menos são parte de uma caminhada na direção certa. Já passou da hora de o público feminino ter a representatividade que merece, tanto no mundo do cinema quanto no "real".





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