O Oscar é a premiação mais importante e prestigiada do cinema, que envolve os filmes que tiveram maior destaque em suas produções. O prêmio é entregue pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas desde 1927, e hoje se encontra na 89ª edição. Nos últimos anos, a cerimônia de entrega vem acontecendo no final de fevereiro, mas a temporada de aquecimento para o Oscar acontece semanas antes. Por isso, preparamos um especial envolvendo 19 categorias da premiação para você conhecer ou relembrar os filmes que já ganharam uma estatueta. Na sexta publicação da série, falaremos sobre 10 filmes que foram consagrados com o Oscar de melhor fotografia.

Dentro do cinema, a fotografia é o elemento que traduz o sentimento da narrativa, é a escolha que o diretor faz para que possamos entender melhor o universo da sua produção, assim como todas as sensações que ele deseja passar durante a história. Os elementos fotográficos que devem ser levados em conta em uma produção não são tão simples: eles vão muito além da mecanização e passam a ter um propósito, um significado.

São considerados os aspectos na fotografia: os planos (o ângulo e a posição da câmera perante seu objeto), os enquadramentos (como a imagem será cortada na tela, que depende muito do plano ambientado), a iluminação (natural, neon, difusa, etc.), os filtros (cores e tons da imagem, que interfere diretamente no sentimento que a cena quer passar), as lentes, e é claro, toda a criatividade e originalidade que contam muito para a composição desse quesito.

A categoria de melhor fotografia já existia desde a primeira edição do Oscar. Com a invenção dos longas em cores, no ano de 1940 a categoria foi dividida em duas: uma para filmes em preto e branco, e outra para filmes coloridos. Já em 1967, essas duas subcategorias foram fundidas novamente em uma só, que é a que conhecemos hoje. Joseph Ruttenberg e Leon Shamroy são os diretores de fotografia que foram consagrados com o maior número de estatuetas: 4 vitórias no século XX.

Está curioso? Confira 10 filmes que venceram o Oscar de melhor fotografia:


1
O Regresso (2015)


Essa é a terceira vez seguida que Emmanuel Lubezki leva a estatueta de melhor fotografia para casa, e quem sabe essa seja a sua mais merecida premiação: a direção de fotografia de O Regresso está impecável. Para começar, as gravações do longa foram feitas no Canadá e na Argentina, durante um inverno bastante intenso e rigoroso. E com a ideia de aproximar mais o filme do espectador, foi utilizada apenas iluminação natural durante as gravações. Isso restringiu a equipe, que teve somente uma hora de gravação por dia.

Outro mecanismo usado para criar essa aproximação foi o uso das lentes. Lubetzki utilizou apenas lentes angulares, de 12 a 21mm, justamente para causar essa imersão à história. É incrível como em algumas cenas podemos ver – e quem sabe sentir – a respiração dos atores, que batiam contra as lentes. Além disso, o diretor de fotografia também contou com uma ajuda extra e inusitada: a presença de um meteorologista, que ajudou a encontrar os melhores locais para serem filmados e onde encontrar neve, já que havia muitos deslocamentos durante as gravações e a preocupação com a luz natural do dia era imensa.


2
Lawrence da Arábia (1962)


Um pouquinho antes da fusão das duas categorias de fotografia (para filmes coloridos e preto e branco), Lawrence da Arábia ganhou o Oscar na subcategoria de melhor fotografia em filme colorido. Esse filme de 1962 conta a história do oficial britânico T.E. Lawrence (Peter O’Toole), que é enviado à Arábia para encontrar o príncipe Faisal (Alec Guinness) e servir de ligação entre os árabes e ingleses na luta contra os turcos.

Ambientado no deserto, o diretor de fotografia Freddie Young explora com maestria as belezas locais, abusando da imensidão da areia, do céu límpido e azulado provenientes daquela região. O nascer do sol, por exemplo, ilustra várias cenas do filme, e o contraste das cenas noturnas com as diurnas dá mais dinamismo ao roteiro, tanto para dar uma sensação de calor quanto para retratar a fragilidade de estar em um local como esses. Essa exuberância natural ainda fica presente nas cenas em que o foco são os diálogos e as relações entre os personagens, assim como também nas cenas de guerra, onde com planos gerais e de close, Young deixa evidente a predominância das cores vivas na fotografia em meio à tensão que acontece na história.


3
Beleza Americana (1999)


As técnicas de fotografia do filme Beleza Americana trazem conceitos incríveis que exprimem sua simbologia. Lester Burham é interpretado por Kevin Spacey, nosso querido Frank da atual série House of Cards. Cansado de sua vida e se sentindo impotente, ele acaba conhecendo Angela (Mena Suvari), uma amiga de sua filha que o faz se sentir motivado e o atrai para novos objetivos. O longa de 1999, dirigido por Sam Mendes, ficou conhecido como um dos clássicos do cinema, e parte dessa consagração toda tem a fotografia como responsável.

Conrad L. Hall conseguiu retratar muito bem a cidade suburbana, explorando a iluminação ensolarada e a simetria perfeita das casas, tudo com muita coloração e saturação. A presença da cor vermelha no filme é bastante evidente, e dentro da simbologia do filme, representa a empolgação, animação e excitação do personagem principal, que vai crescendo no decorrer da história. E o vermelho vem sendo destaque desde os elementos de cena: vaso, sangue, carro, e principalmente rosas, que acabam sendo o grande símbolo do filme. A cena mais icônica do filme, por exemplo, faz o uso desse artifício: o mar de rosas em que Angela se deita nua, e que caem sobre Lester faz toda a representação de beleza, superficialidade e delicadeza que o filme quer passar.


4
Sangue Negro (2007)


Em Sangue Negro, Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um minerador de prata falido que decide começar uma nova vida e buscar a fortuna com seu filho em um local rico de petróleo. Entretanto, os seus interesses entram em conflito com o pastor da cidade, figura mais importante do local. O filme é dirigido por Paul Thomas Anderson, e a fotografia oscarizada ficou a cargo de Robert Elswit.

Imagens granuladas nos levam de volta ao século XX, e tons mais frios nos fazem crer que estamos dentro de um universo de western. No entanto, quem tem mesmo destaque na fotografia é o personagem principal, onde sua figura tem como principal razão dialogar com essa técnica, tão precisa que chega a ser poética. Enquadramentos de close e cortes súbitos e secos destacam o vazio sentido por Daniel, que junto com cores densas e escuras, retratam seu estado de espírito. O jogo de contraluz também ganha destaque, e as sombras duras são recorrentes e marcam o ar sombrio da sua personalidade – além de dialogarem com o resto do roteiro do filme.


5
O Labirinto do Fauno (2006)


Rica em matrizes de cor e luz, Guillerme Navarro comanda a fotografia do filme O Labirinto do Fauno. A grande preocupação com a composição das cores em cena é evidente, visto que elas se moldam conforme o sentimento que o diretor deseja passar para o espectador. As cenas fantasiosas, dentro da floresta, são as que mais se destacam: tons frios e acinzentados compõem uma atmosfera misteriosa que beira ao medo e ao desconhecido, mas que também ressaltam a bravura da protagonista. Já a cena do banquete, predominam tons mais quentes e amadeirados, que juntamente com a direção de arte, faz um trabalho incrível.

Os vários tipos de planos e enquadramentos se alternam durante a história e conversam perfeitamente com o espectador. Vale destacar as cenas do fauno, que em enquadramentos de close e ângulos contra-plongée, mostram a superioridade da criatura, além de instigar curiosidade e receio no espectador.


6
Gravidade (2013)


No filme Gravidade, Emmanuel Lubezki (que também trabalhou nos premiados Birdman e O Regresso) leva o seu primeiro Oscar. Como grande parte do longa se passa dentro de uma espaçonave, não há muitos detalhes da história para visualmente explorar. Mas o diretor de fotografia mexicano conseguiu criar artifícios que mostrassem a originalidade das cenas, e consequentemente, deixou tudo mais criativo e dinâmico. Um exemplo disso são as cenas dos monólogos de Sandra Bullock no filme, onde Lubezki usou e abusou do chroma key em vários ângulos e enquadramentos diferentes.

As cores azul, cinza, branco e preto se complementam em uma incrível sintonia, presentes em todos os momentos do longa e também compondo a coloração do filtro, dando um ar frio e calmo à produção. Destacam-se os ângulos plongée e contra-plongée durante a história, principalmente nas cenas de tensão em que Bullock aparece.


7
Dança Com Lobos (1990)


Belas paisagens, representação indígena e imagens que falam pelo silêncio são as características que se destacam em Dança Com Lobos. Nessa trama de Kevin Costner, o militar John Dunbar (interpretado pelo diretor do filme), durante o período da Guerra Civil Americana, cria uma estratégia não violenta para se aproximar dos índios Sioux. Esses, por sua vez, acham curiosa a amizade do tenente com um lobo, e passam a conviver de forma afetuosa com ele.

A fotografia de Dean Semler, juntamente com a construção dos cenários e do figurino, cria um ambiente bastante semelhante da época e do lugar retratados no filme. Planos gerais e abertos exploram as belezas naturais do local, como o nascer e o pôr-do-sol no final das longas planícies das pradarias, e a predominância de cenas que mostram a relação entre o homem e a natureza fica evidente com uma fotografia delicada e muito bem executada. Durante alguns momentos, o diretor do filme faz longos takes de silêncio, sem nenhum diálogo, e Semler aproveita essas cenas para criar uma atmosfera de isolamento ao filmar os personagens em close.


8
As Aventuras de Pi (2012)


O chileno Claudio Miranda ficou responsável por dirigir a fotografia de As Aventuras de Pi, que segundo ele em uma entrevista, “não foi fácil”. O filme, que ganhou bastante crédito pela ótima qualidade da imagem – unia 3D com efeitos gráficos realísticos, conta a história de Pi, um garoto sobrevivente a um naufrágio no Oceano Pacífico que acompanhado por um tigre em um barco, espera por resgate.

De acordo com Miranda, a fotografia do filme foi idealizada a partir de duas combinações: o 3D de Tron: O Legado, e o visual digital não eletrônico de O Curioso Caso de Benjamin Button (dois filmes em que o diretor participou). Uma grande preocupação na produção do filme foi o posicionamento das câmeras nas cenas em alto mar, já que o 3D poderia causar náuseas no espectador por conta dos movimentos das ondas. Por disso, Miranda teve que pesquisar o que causava enjoo às pessoas devido a água, e o resultado foi incrível: uma perfeita fotografia digna de um documentário do Discovery Channel. Cores vivas, fortes e vibrantes, tons amarelados e até a presença de neon fizeram a composição visual do filme, deixando tudo mais real e emocionante.


9
A Origem (2010)


Em A Origem, Leonardo DiCaprio é Cobb, um fugitivo impedido de entrar nos Estados Unidos que aceita a missão de entrar na mente do herdeiro de um grande império econômico, para plantar a ideia de desmembrá-lo. Em um mundo onde é possível entrar na mente das pessoas, a posição das câmeras, os planos e enquadramentos podem ser direcionados a favor do diretor, abrindo a possibilidade de um dinamismo fora do habitual e da estética padronizada. Portanto, a fotografia do filme é um aspecto extremamente fundamental e necessário para a construção do roteiro e complementa os efeitos especiais.

Um grande exemplo da sua importância é na cena do corretor do hotel, que gira 360º e brinca com os enquadramentos e planos, abrindo um leque de sensações possíveis para o espectador sentir. Wally Pfister é quem comanda a direção de fotografia do filme, fazendo um ótimo trabalho. A tonalidade do filtro alterna entre cores frias e pasteis, que podem ser relacionadas a loucura e ao subconsciente, respectivamente.


10
Apocalypse Now (1979)


Nesse longa de Francis Ford Coppola, Martin Sheen é o Capitão Willard, que recebe a missão de encontrar e matar o comandante das Forças Especiais, o Coronel Kurtz, interpretado por Marlon Brando. No entanto, ele aparentemente está enlouquecido e refugiado nas selvas do Camboja, no qual comanda um exército de fanáticos.

É muito fácil esquecer o roteiro, os diálogos e as atuações para apenas contemplar a fotografia do filme, que é completamente imersiva. Vittorio Storano faz um ótimo trabalho, criando toda uma composição de cores, sombras e sobreposições em Apocalypse Now. Os planos e enquadramentos do longa são inquietantes, a fotografia granulada predomina as cores avermelhadas e sépia, dando um ar de crueldade e tensão ao filme. As cenas na selva combinam perfeitamente com os tons do filme, sobressaindo a ideia de retratar um lugar bastante quente, úmido, quase inóspito. Além disso, vale também ressaltar as aparições do Coronel Kurtz, onde a fotografia, aliada à atuação de Brando, cria um personagem complexo: sua loucura é visualmente aparente devido a iluminação marcada da cena e a construção de sombras, o que o dá um ar ainda mais misterioso.

E aí, ficou com vontade de assistir alguns destes filmes? Aposto que você já conhece vários deles. Mas que tal reparar na fotografia deles? Assista mais uma vez aos filmes dessa lista e perceba como essa técnica é importante na composição artística e criativa do filme, além de contribuir (e muito!) para o roteiro. E depois, conte para nós o que achou! Agora nos resta conferir esse ano quem levará a estatueta dessa categoria para casa.





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