O Oscar é a premiação mais importante e prestigiada do cinema, que envolve os filmes que tiveram maior destaque em suas produções. O prêmio é entregue pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas desde 1927, e hoje se encontra na 89ª edição. Nos últimos anos, a cerimônia de entrega vem acontecendo no final de fevereiro, mas a temporada de aquecimento para o Oscar acontece semanas antes. Por isso, preparamos um especial envolvendo 19 categorias da premiação para você conhecer ou relembrar os filmes que já ganharam uma estatueta. Nossa segunda matéria dessa série de publicações trata de Efeitos Visuais (e a arte de enganar os olhos do espectador).

Um dos pioneiros nessa arte é Stan Winston, que ao longo de sua carreira - que, infelizmente, teve fim em 2008 - pôde atuar como diretor, supervisor de efeitos especiais e maquiagens. Em seu currículo, temos O Exterminador do FuturoA.I.: Inteligência ArtificialEdward Mãos de Tesoura, Homem de Ferro e, claro, a trilogia dos anos 1990/2000 Jurassic Park. Além disso, há outros 50 títulos hollywoodianos em sua lista, incluindo alguns títulos de terror (ao lado do renomado makeup artist Rick Baker).

Stan recriou o conceito de animatronics (estruturas robóticas - ou controladas por humanos - cujo trabalho é simplesmente te fazer pensar que são reais), tornando-se pioneiro no ramo, sendo visto até hoje como um exemplo a ser seguido. E seja com animatronics, animações, robôs ou cenas geradas totalmente por computador, a relação de Oscar e a história dos efeitos especiais é próspera - e torçamos para que dure ainda mais algumas décadas!

Observação: os números que acompanham os títulos a seguir representam o ano do Oscar onde o respectivo filme foi premiado - ou seja, todos filmes foram feitos um ano antes do indicado.

2001 - Uma Odisseia no Espaço (1969)


O nome Stanley Kubrick (ou melhor, Arthur C. Clarke) provavelmente vêm à sua mente ao lembrar de 2001, mas poucos sabem o empenho da equipe (um time de mais de 100 pessoas) e a importância dos efeitos especiais que marcaram o mundo da ficção científica. Até hoje, 2001 é visto como um exemplo de veracidade científica - isso graças ao nível absurdo de perfeccionismo do diretor. A icônica estrutura que girava em seu próprio eixo, o monolito e a própria ideia de astronautas flutuando no espaço compunham a bagatela de 6.5 milhões de dólares (mais de 60% do total) gastos por Kubrick somente em efeitos especiais.

Este foi o único Oscar que Kubrick recebeu em sua carreira, mesmo sendo nomeado 13 vezes (como melhor diretor, roteiro original, melhor filme e efeitos visuais). O diretor Douglas Trumbull, em entrevista ao Hollywood Reporter, disse que Kubrick não merecia o prêmio, afinal ele "não criou os efeitos especiais, ele os dirigiu".

Guerra nas Estrelas (1978)


Uma das lendas geeks mais antigas de todos os tempos é que, na falta de recursos para produzir asteroides, a equipe de Star Wars utilizou uma batata e um tênis para preencher o "espaço". A imagem rodou a internet (ok, isso começou nos anos 1990, 10 anos depois do filme) e criou-se aí uma lenda misteriosa. Acontece que em nenhum momento da trilogia há realmente os dois itens em cena - segue aqui um link com a versão em Blu-Ray, para maiores dúvidas -, e a magia do cinema ainda está a salvo. E, ah, assim como 2001, Guerra nas Estrelas também revolucionou o cinema (e o mundo), com ou sem batatas e calçados.

Movimentos de câmera em alta velocidade recriaram o efeito de naves viajando pelo espaço; sets em miniatura foram alvo de explosões reais; dróides eram somente fantasias de humanos mortais; animais e naves terrestres foram gravados com a técnica de stop motion (em que são tiradas dezenas de fotos a fim de imitar uma sequência de movimentos); sabres de luz na verdade eram hastes brancas; e a épica abertura foi feita sem auxílio de computação gráfica. Estas são só algumas das memoráveis conquistas da saga Star Wars, referência cinematográfica há quase 40 anos.

Atenção: na época, o filme ainda era chamado simplesmente de "Star Wars", tornando-se somente o conhecido Episódio IV pré-anos 2000, logo antes do lançamento de A Ameaça Fantasma. Porém, ainda na década de 1970 (quase 1980), ganhou o acréscimo Uma Nova Esperança e suas sequências foram nomeadas O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi para evitar confusões na, até então, trilogia fantasiosa intergaláctica mais popular do século.

Alien, o Oitavo Passageiro (1980)


A primeira mistura de ficção científica e terror bem feita da história, Alien, o Oitavo Passageiro convenceu e aterrorizou o público logo na virada da década. Ridley Scott, diretor do filme, brinca que "nada acontece nos primeiros 45 minutos de filme", e essa é a melhor parte. Demoramos um bom tempo até entender a ideia principal do filme - e tenho certeza que a experiência foi inesquecível aos espectadores de primeira viagem da época -, e somos pegos de surpresa por uma explosão sangrenta e um pequeno ser de outro planeta que pula para fora do peito de um dos membros da USCSS Nostromo.

Ripley, a protagonista mais badass de hoje e sempre, luta por sua vida enquanto a acompanhamos em sua fuga da espaçonave e torcemos para que haja uma sequência. Bolaji Badejo é o nome do ator nigeriano por trás da roupa do monstro espacial. Ele, com espetaculares 2,10m de altura, soube entrar na vida do personagem e coordenar seus movimentos aos da equipe que controlava as marionetes, em uma equipe de efeitos visuais composta por H.R. Giger, Carlo Rambaldi, Brian Johnson, Nick Allder e Dennis Ayling. A sorte também seguiu adiante: uma de suas sequências, Aliens, O Resgate também levou a estatueta para casa, em 1987.

Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1982)


Com potencial para ser o título menos influente (em termos de revolução em uma Hollywood lotada de efeitos especiais), Os Caçadores da Arca Perdida é uma referência e um marco no gênero de aventura. Quer dizer, Indiana Jones basicamente criou a fórmula do esteriótipo aventureiro, que explora uma floresta em busca de um tesouro perdido, se mete em diversos problemas mas, no final, tudo fica bem. Cenários em miniatura e montagens criativas (para representar as viagens de Indie pelo mundo) marcaram a quadrilogia de maneira excelente.

O cenário, rico em detalhes, e a direção de quem bem entende do assunto (Steven Spielberg que, a essa altura, já era bem conhecido) veio acompanhada do criador George Lucas e do eterno Han Solo Harrison Ford. Essa é a verdadeira fórmula do sucesso. Tanto que, três anos após Caçadores, Templo da Perdição também ganhou Oscar.

Uma Cilada Para Roger Rabbit (1989)


Um desafio: tornar possível a mistura de animação e atores reais em um mesmo ambiente. A interação precisava ser perfeita, cada truque precisava ser coreografado e o resultado precisaria enganar até o mais sábio dos senhores que assistisse (além de, claro, enganar as crianças também). Não, este não é Space Jam. Trata-se de Uma Cilada Para Roger Rabbit, na era pré-computação gráfica de qualidade.

Os atores foram guiados por bonecos, marcas visuais ou até outros humanos para saber, pelo menos, para onde olhar na hora de dialogar com um personagem animado. Bob Hoskins, que viveu o protagonista, atuou muitas vezes em frente a uma telona azul (principalmente na Toontown) e foi claramente o ator que mais foi gravado trabalhando sozinho em todo o filme. Na edição, eram inseridas as cenas totalmente animadas, intercaladas com a mescla "humanos-animação". Confira uma montagem com "antes e depois" da inserção das animações clicando aqui.

Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1994)


Este é, sem sombra de dúvidas, o melhor e mais importante trabalho de Stan Winston para a história do cinema. Foi na trilogia Jurassic Park que tivemos a ideia de que, por um instante, os dinossauros ainda possam existir. Isso só funcionou graças ao empenho genial de Stan e sua mistura de animatronics e técnicas stop motion para auxiliar em animações geradas por computador. Muitos de seus efeitos práticos servem como forma de estudar esta arte, e a graça está exatamente em discernir como/quando utilizar tal recurso para contar a história.

Há 24 anos, a tecnologia de computação gráfica já era bastante avançada, mas nada comparado ao começo dos anos 2000. Logo, algo que parece tão fácil de ser feito em um programa da Adobe era um verdadeiro desafio (que não custava pouco) em 1993. E a jogada era fazer parecer real. A solução? Construir um T-Rex mecânico de verdade. E vestir dublês com fantasias de velociraptor. E assim, crianças de todo o mundo ficam fascinadas pela magia de Spielberg e começam a amar dinossauros. E é assim que este torna-se o Oscar mais merecido de toda a lista.

Matrix (2000)


A técnica do bullet time (que consiste em congelar o tempo, a fim de deixar um simples tiro de pistola muito mais dramático) serve como exemplo após sua aplicação na trilogia Matrix. A distribuição de dezenas de câmeras em um complexo 360º forrado de chroma key é a chave para conseguir saltos que podem ser vistos de todos os ângulos possíveis - pelo menos neste espaço 360.

Muitas vezes, a intenção não era fazer parecer que o ambiente era real, afinal tratava-se de um universo digital - e os rostos pareciam ser feitos de borracha. As cores, conflitos mentais do nosso herói e suposto "escolhido" Neo, travaram o clima perfeito para um bom filme de ação dos anos 1990/2000. CGI foi utilizado para gerar cartuchos de balas, suavizar movimentos rápidos (e deixá-los em câmera lenta também), apagar fios de segurança e, como todos bem lembram, criar todos aqueles caracteres de cor verde caindo como chuva em um fundo preto. Matrix é um exemplo de um filme de ação que não economiza em efeitos especiais, seja para pular de um prédio ou "navegar pela internet".

Avatar (2010)


Na primeira década dos anos 2000, alguém precisava revolucionar o cinema. Então surge, do nada, a ideia bizarra de o diretor de Titanic (?) criar um universo onde alienígenas azuis (??) são invadidos por humanos em busca de seus recursos naturais (???). Surreal? Sim, porém, Avatar ainda ocupa uma alta posição no "Top 15 filmes da década". Um espelho claro da nossa realidade - explorando recursos naturais, matando inocentes, etc. - contado em um universo magicamente tecnológico.

No longa pudemos ter o prazer de ver uma captura de movimentos muito bem feita, aprimorada para replicar no rosto dos queridos seres azuis expressões faciais naturais, de altíssima qualidade. A mistura com atores reais serve como um Roger Rabbit repensado, pode-se assim dizer. E ah, esqueci de dizer que, pelo menos aqui no Brasil, 90% dos nossos cinemas foram aprimorados para receber a "versão 2.0" do tão odiado 3D. Óculos vermelhos e azuis nunca mais: o filme foi gravado com a tecnologia revolucionária e o mundo precisou lidar com isso. E isso tem dado certo há uns sete anos, então ok.

A Origem (2011)


Christopher Nolan. Um nome que você deve ter ouvido/lido muitas vezes acompanhado de um prêmio importante - e que, se dependesse de mim, apareceria mais algumas vezes aqui na lista. Este diretor/produtor/roteirista/visionário criou universos inesquecíveis. Em A Origem temos um pequeno gostinho de sua capacidade: um sonho, dentro de outro sonho, dentro de outro sonho, etc., em uma história que conseguimos compreender muito bem. E seus recursos especiais também merecem um reconhecimento extra por aqui.

Truques capazes de enganar a mente, desafiar as leis da gravidade e dobrar o universo. Em resumo, este é A Origem. Na imagem acima, vemos um corredor aparentemente normal - se você desconsiderar que os atores estão apoiados no teto -, construído dentro de uma estrutura giratória, cuja inspiração forte está em 2001, citado aqui anteriormente. Cenários em miniatura e abuso de CGI também compõe a obra, completa por um enredo de cair o queixo e um final questionável digno de teorias pela internet.

Interestelar (2015)


A ficção científica mais "surreal" da década. A prova disso? Novamente está em Christopher Nolan "emprestar" conceitos de Stanley Kubrick e contactou ninguém menos que o renomado físico norte-americano Kip Thorne para auxiliá-lo no que era certo e errado a respeito de buracos negros e na construção de todo o universo (no sentido literal da palavra) de Interestelar. A visão científica do filme foi tão falada em 2014 que, no mesmo ano, Thorne lançou um livro entitulado A Ciência de Interestelar.

Admitimos que muitos dos recursos narrativos foram pura licença poética, mas é necessário reconhecer uma coisa: os efeitos especiais estão muito bem feitos, capazes de convencer o público e fazer questionar se aquele tipo de tecnologia (e proezas físicas) possam existir em um futuro próximo. Nolan encontrou locações reais de "outro mundo", compôs cenários (muito bem construídos), robôs que conversam com humanos e até colocou uma câmera IMAX em um jato, tudo isso com a única finalidade de deixar tudo à moda antiga (como sempre gostou de fazer) e desviar ligeiramente da obrigação de criar cenas em CGI. Nolan, um diretor premiado que cria universos com a licença poética que bem quiser.

Bônus: Trilogia Senhor dos Anéis (2002, 2003, 2004) - venceu 17 das 30 indicações


A trilogia geek mais premiada da história do Oscar não tem esse título a toa: a Nova Zelândia, um dos principais destinos dos fãs da saga, é a sede dos sets construídos especialmente para o filme (restaurados e abertos ao público até hoje). Truques de câmera, cenários em escalas maiores e uma atuação convincente foram somente alguns dos macetes utilizados em cena para ajudar a criar a fantasiosa ideia de que hobbits, feiticeiros, elfos e anões coexistem.

Computação gráfica, utilizada nas massivas batalhas (ao lado de uma das primeiras técnicas de captura de movimento realmente convincentes do cinema), foi inevitável, tanto como maquiagens e cenários práticos, todos atuando em perfeita harmonia com a história. Filmes de Harry Potter podem manter figurinos e props intactas e cobrar por um tour em seus estúdios, mas convenhamos que nada se compara à beleza natural das paisagens élficas de Senhor dos Anéis.





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