O Oscar é a premiação mais importante e prestigiada do cinema, que envolve os filmes que tiveram maior destaque em suas produções. O prêmio é entregue pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas desde 1927, e hoje se encontra na 89ª edição. Nos últimos anos, a cerimônia de entrega vem acontecendo no final de fevereiro, mas a temporada de aquecimento para o Oscar acontece semanas antes. Por isso, preparamos um especial envolvendo 19 categorias da premiação para você conhecer ou relembrar os filmes que já ganharam uma estatueta. Na oitava parte deste nosso especial, falaremos sobre a edição (ou montagem, como preferir).

Direção e roteiro não são nada sem uma boa edição. Se não houver um olhar para interpretar a intenção do diretor, a "magia" de toda a estrutura pode se desmanchar. Você provavelmente já assistiu a filmes com sequências em flashback (geralmente memórias do protagonista). Não necessariamente, aquelas cenas em questão foram filmadas antes do restante do filme. Por uma questão de logística, é melhor aproveitar que sua equipe filme todas as cenas em Marrocos, por exemplo, antes de ir para Los Angeles gravar o resto do filme. A montagem torna isso possível.

Ainda há a possibilidade do diretor do filme em questão ser Christopher Nolan: aí é uma certeza que nada será filmado na ordem cronológica. Em A Origem temos diferentes planos da história, e você volta a visitá-los frequentemente ao decorrer da narrativa. Outro bom exemplo é o filme Amnésia, onde vemos cenas de trás para a frente, intercaladas como tempo presente, e temos que descobrir como tudo aconteceu "editando mentalmente" o longa. É um bom treino para quem quer apreciar mais este tipo de arte.

A seguir, outros dez premiados filmes onde você pode ter uma excelente aula de edição:

Tom Cross; Whiplash: Em Busca da Perfeição (2015)


Um bom exemplo de como a mescla entre edição e gravação funcionam em bom "ritmo". Tom Cross, que havia trabalhado em poucos projetos musicais antes de Whiplash, encontrou uma forma de narrar a história com o foco exato entre o drama, ação/movimento e priorizar o silêncio. A emoção é transmitida no timing de cada corte seco, com momentos de ansiedade e nervosismo marcados por este mesmo "tempo".

Sem necessidade de spoilers, destaco a cena final como um excelente exemplo da combinação de áudio e imagem. Slow motion, movimentos rápidos, perda de ritmo, pratos com gotas de sangue, pausas na música (e na imagem) são poucas demonstrações da incrível percepção no momento mais importante do premiado filme. Não posso deixar de lado a introdução, com um memorável fade-in (do preto ao título do filme), que dá a dose necessária de lentidão e a explicação clara do tema do longa: ritmo; em qualquer pilar da arte audiovisual.

Assim, diferente de Tom, o protagonista de Whiplash não encontrou bem este "ritmo" para prosseguir com a história — tornando a edição ainda melhor.

Kirk Baxter e Angus Wall; A Rede Social (2011)


Admito que David Fincher acaba tendo boa parte do crédito por sua visão única de direção, mas não podemos esquecer na maneira como A Rede Social é contada. E, ao contar uma história, estamos falando sobre edição. Não importa quão bom seja um roteiro (neste caso, adaptado do livro homônimo), o segredo está na sensibilidade para reconhecer quando intercalar takes para definir um personagem. Ao lembrar de Mark Zuckerberg (ou melhor, Jesse Eisenberg) você facilmente é pego de surpresa por sua rapidez de raciocínio.

Por sorte, temos um outro ponto essencial na edição de qualquer filme: além de contar a história, deve-se fazer com que o público não perceba os cortes. Na maioria das vezes, a fotografia carrega esse fardo como ninguém, porém, não basta "sair" de uma cena. Deve-se ter a intenção de transmitir uma mensagem ou simplesmente apresentar um personagem. Zuckerberg é complementado por cortes rápidos quando dialoga com outros personagens da história (em especial, nos primeiros minutos de filme), e isso exemplifica como o interlocutor não está na mesma página do Sr. Facebook. A falta de compreensão é expressada com o toque sutil de edição.

Chris Dickens; Quem Quer Ser um Milionário? (2009)


Fotografia e edição são inseparáveis. Vemos isso muito bem em Quem Quer Ser Um Milionário?, com cores para diferenciar diferentes ambientes e situações da vida do protagonista. Mesmo com a tentativa de recriar o efeito dramático do reality show, a transição entre as diferentes realidades do jovem personagem (seja ao vivo para milhares ou um indiano comum entre outros milhões) são, literalmente, dignas de Oscar.

Logo no final do filme, vemos o contraste das duas histórias: Jamal no programa, concorrendo ao grande prêmio, e sua amada no meio da Índia, torcendo por ele. A tensão da "ligação de emergência" (algo que poderia supostamente ajudar os participantes do programa em momentos de dúvida) é editada de maneira cadenciada para mostrar a adrenalina de ambos os lados. Toda a cena final pode ser interpretada como um clichê de filmes do tipo, mas se há algo que não merece é desprezo, pela qualidade da produção.

Thelma Schoonmaker; Os Infiltrados (2007)


Ação sem boa edição perde sua magia. Os Infiltrados carrega, durante boa parte do filme, sequências inesperadas seguidas por violência corpo a corpo e closes íntimos para colocar o público "no meio" da briga. Diálogos, porém, podem ser o grande destaque do longa. Você é facilmente levado por DiCaprio em sua "sede por violência", conversando com antagonistas nem um pouco amigáveis, de uma forma que você já é condicionado a esperar pela conclusão: pancadaria. Bares, lojas e escritórios são os cenários perfeitos para um simples diálogo escalar ao nível de sangue jorrando para todo o lado, sendo acompanhado pelo movimento dos atores/dublês, das câmeras e da edição "ninja".

Jamie Selkirk; Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2004)


Montagens épicas não poderiam ser deixadas de lado. Ok, belas paisagens, efeitos visuais/especiais e bons atores são grande parte do filme ser um sucesso de bilheterias e premiações, mas também devemos levar em consideração que em toda a trilogia de Senhor dos Anéis temos ótimas cenas de tranquilidade e seu exato oposto, violento como toda a parte dark da Terra Média.

A escala dos personagens foi passada na medida certa: sem haver exagero em cenas de perspectiva forçada (quando a câmera capta dois atores da mesma altura, em um ângulo que faz parecer um é um hobbit e outro é mago), compreendemos bem como funciona o universo e toda a sua grandeza.

Zach Staenberg; Matrix (2000)


Sem a necessidade de maiores explicações, temos Matrix como um dos primeiros grandes exemplos da edição do "novo século". Grande parte disso, era dar uma noção ao poder que a, até então, supérflua internet, poderia mudar em nossas vidas. Uma das cenas em que Neo aprende a lutar, por exemplo, é a situação perfeita para uma boa análise de todo o filme. Tudo gira em torno do herói e de sua jornada.

Cada close na montagem entre a conversa de Neo e Morpheu é um "passo" à frente para toda a sabedoria de Neo e sua verdadeira descoberta por ser "O Escolhido". Gradativamente, vemos a fluidez de takes longos (em cenas de aprendizado) e rápidos (em cenas de dominância e ação) como uma montagem surreal sobre o que nos ajuda a entender a Matrix. Afinal, no mundo real não temos como desviar de balas em câmera lenta — ok, mas ainda podemos aprender artes marciais como nosso querido protagonista, mesmo sem uma "edição exemplar" em nossas pequenas conquistas do cotidiano.

Conrad Buff IV, James Cameron e Richard A. Harris; Titanic (1998)


A "cena de um milhão de dólares" não ganhou este título a toa. "Eu sou o rei do mundo" talvez não tivesse a mesma intensidade caso houvesse uma edição precária da tal cena. Por sorte (ou melhor, pura habilidade), temos o produto final em Titanic, como um dos marcos da cultura pop. DiCaprio e seu colega na proa do enorme navio: uma cena composta por dezenas de efeitos visuais e uma edição de ponta para dar toda a grandeza que merece. Talvez nem mesmo a cena de todo o desastre tivesse a tristeza sem os devidos cortes entre Jack e Rose (claro, sem contar na última cena de Jack no filme), fazendo com que até os mais jovens entendam a importância do casal para toda a história. Pois Céline Dion não fez o filme sozinha — é, na verdade foi o próprio filme que deu um up na carreira da moça.

Arthur SchmidtForrest Gump: O Contador de Histórias (1995)


Por mais que você não se lembre, Forrest Gump está lotado de longos takes. Essa escolha é ditada pela própria montagem do longa, principalmente tratando-se de Forrest ser um contador de histórias. Tudo se passa em um banco, e a edição faz com que esqueçamos disso. Ele é só um jovem (maluco) contando histórias sobre sua mãe, caixas de chocolate e Elvis Presley, certo?

Dou destaque para a cena de corrida do protagonista pelo país: sem necessidade de títulos na tela mostrando o local em questão, conseguimos discernir o quanto Forrest correu pela técnica da edição. 

Thelma SchoonmakerTouro Indomável (1981)


A melhor introdução de todos os tempos. Scorsese é um mestre em saber separar frames congelados e câmera lenta combinada ao silêncio. A preparação de DeNiro para lutar contra seu adversário (e os socos recebidos logo após) são composições de uma cena completamente dramática, onde facilmente interpretamos o ritmo do filme. Há variações de socos do ponto de vista de Jake LaMotta, seu oponente, um terceiro ângulo com ambos, as luvas de LaMotta na beirada do ringue e flashes dos espectadores, tudo em pouquíssimos segundos de filme.

A primeira derrota de Jake, a vitória de Sugar Ray e as diversas cenas de diálogo inteligente, acrescidas da boa fotografia, compõe Touro Indomável e um dos melhores filmes da década. Tudo graças a parceria do diretor e da sábia Thelma Schoonmaker. Quer conhecer mais sobre as técnicas de edição nos filmes de Scorsese? Confira este vídeo.

Richard Chew, Paul Hirsh e Marcia Lucas; Star Wars (1978)


Como não poderia faltar em uma lista sobre edição, temos o espetacular exemplo de Star Wars (ou Uma Nova Esperança, como quiser chamá-lo). A grande jogada de toda a saga, exceto em Rogue One, está no artifício utilizado para a transição de cenas chamado "screen wipe", com a transição em que parece que a tela toda é jogada para o lado, em um corte vertical de um lado ao outro da tela.

Temos exemplos disso no Episódio IV, mas em todos os sete filmes podemos ver como cada ideia é reinventada. O wipe pode ocorrer como um relógio, em sentido horário na transição, ou pode ser substituído como dissolução (ou dissolve), de maneira suavizada. 

Creio que não há um grande destaque para cenas de lutar de sabres de luz, ou para a narrativa em si, mas o fato de existirem wipes separando a história de Han, Leia e Luke em seus diversos momentos durante os três episódios (IV, V e VI, no caso), acabam tornando-se naturais principalmente aos que não são fãs de Star Wars.





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