De todas as produções disponíveis no catálogo do site de streaming Netflix, são poucas as opções brasileiras. E de uma forma mais ampla, a quantidade de produções cinematográficas feitas no Brasil não se compara com as de Hollywood (ou Bollywood). Já quanto à qualidade, há divisores de água: filmes nacionais aclamados pela crítica, e outros considerados extremamente ruins. 

Mas a bola da vez é dada a uma produção original da Netflix. 3% (três por cento) é série 100% brasileira que estreou no último mês, com 8 episódios de 45 minutos cada. Ela foi idealizada em 2009, sendo que seu episódio piloto foi ao ar somente em 2011, no Youtube. 5 anos depois, é reestruturada com novos atores e equipe de produção, entre eles Cesar Charlone e Pedro Aguilera, que ficaram na direção da série.

Para quem não sabe, o seriado aborda uma distopia em um mundo pós-apocalíptico, no qual o planeta foi devastado. Sem água, comida e recursos, as pessoas vivem no Continente, local extremamente miserável do Brasil. Entretanto, ao completar 20 anos, todo cidadão recebe a oportunidade de passar pelo Processo, uma série de provas físicas e psicológicas que se obtidas com êxito, dão a chance dos candidatos morarem no Maralto, uma região brasileira onde não há pobreza e nenhum recurso é escasso. Porém, apenas 3% dos candidatos conseguem passar nesse processo.

Se você se interessou pela série (ou mesmo se você já a assistiu), confira a seguir 10 pontos que farão você amá-la ou odiá-la:

1
Roteiro


3% começou como uma websérie do Youtube em 2009. Depois de ser comprada pela Netflix, teve uma mudança radical na equipe de produção e atuação, entretanto, a ideologia da trama permaneceu a mesma — o que fez com que a série recebesse bastante responsabilidade por conta da expectativa de quem acompanhava sua trajetória. Um universo distópico, pós-apocalíptico e ditatorial não é mais novidade: já tivemos Jogos Vorazes, Divergente, Maze Runner. Porém, 3% é bastante diferente das criações brasileiras. Na verdade, a série é a primeira produção do Brasil a abordar esse tema. Mesmo assim, peca no roteiro.

Extremamente previsível — e em alguns momentos maçante, irritante e sem sentido — o roteiro é construído de forma precária, sem muito aprofundamento e, quando resolve aprofundar em certos personagens ou cenas, faz uma salada de informações. A trama não é bem amarrada, os diálogos são pobres, muitas vezes constrangedores, e os personagens não poderiam ser mais estereotipados. A ideia é boa, o roteiro não.

2
Desenvolvimento


O desenvolvimento da trama não foge da qualidade do roteiro. Repetitiva e em algumas vezes monótona, a narrativa não impressiona. Muitas coisas não ficam explicadas, como o funcionamento do Processo, por exemplo. Tudo o que sabemos dele não passa de uma superficialidade preguiçosa, assim como as informações sobre o Maralto, o Continente e sobre como aquele ambiente se tornou o caos que vemos. Faltam muitas lacunas a serem preenchidas, muitas delas devendo desde o primeiro episódio.

Outro ponto em que o desenvolvimento peca é na profundidade dos personagens: muitos deles, como o cadeirante Fernando, um personagem com potencial para ser explorado, é desenvolvido de forma horrível. Sem saber o que quer, vai metaforicamente sendo chutado para a série, até culminar em um fim caótico e sem sentido. A construção da personagem Michele é outro problema: não tem identidade. Já Rafael, não tem propósito pelo que faz. A gente espera, achando que vem algum plot twist ou uma surpresa que explique e contextualize tudo... mas nada acontece.

3
Recursos visuais


Um recurso bem utilizado em diversos filmes (e percebido por poucos) é a estabilidade — ou instabilidade — da câmera. Ao final do clássico Seven - Os Sete Crimes Capitais, podemos notar como este é bem utilizado: enquanto os takes do personagem de Brad Pitt são filmados em uma câmera sem estabilidade, as imagens de Kevin Spacey (ops, spoiler!) são fechadas com a câmera sobre tripé.

Em 3%, esse mesmo recurso é utilizado (em excesso) para intercalar takes abertos e fechados, de maneira aleatória. Enquanto em Seven vimos a representação de "sanidade mental" com uma câmera sem movimentos — e seu oposto com uma imagem que chacoalhava sem perder o foco —, na série da Netflix o recurso é despejado no lixo. Não faz nenhum sentido.

Por outro lado, também há um contraste agradável aos olhos para definir ricos e pobres. Dentro do complexo de provas, vemos dominância de tons claros. O uniforme dos recém-chegados (em tons de azul, vermelho e mostarda) fazem um traço óbvio entre quem pertence ao lugar e "quem só está de passagem" — além de também simbolizar diferentes classes sociais. E esse é o único ponto positivo para a produção.

4
Atuação


Entendemos que uma figura global estrelar uma série nacional é algo bem comum. Tanto que, caso a situação seja oposta, até estranhamos e pré-julgamos o sucesso de tal.

Como um todo, 3% tem atuações medianas... que muitas vezes passam dos limites. Em diversas situações é fácil se deparar com interrupções de diálogo mal atuadas, de maneira quase robótica, quando você sabe que o interlocutor da conversa, por exemplo, já adianta a expectativa de ser interrompido. Nessas situações é fácil sacar que há quase que um teatro mal ensaiado, tirando a imersão de quem assiste.

Alguns olhares "misteriosos" são indiscretos e claramente coreografados. Em qualquer obra cinematográfica que isso fique evidente, é sinal de má atuação. Contudo, desconfio que muitas vezes o caso é da própria produção da série. É como se uma única encenação tenha sido gravada e o projeto já foi levado para edição final, sem regravações e reajustes "in loco". Os atores possuem potencial que pode não ter sido aproveitado ao máximo.

5
Computação gráfica

Não precisa ser especialista em linguagem audiovisual para saber que efeitos especiais só são “bem feitos” quando você não nota takes reais e takes criados digitalmente. Tratando-se de uma série da Netflix, é até compreensível que nada fique muito simples. Porém, o visual é incomparável às primeiras temporadas de Game of Thrones, por exemplo. Ok, numa questão de “aposta Netflix”, podemos entender que o orçamento foi mediano (ou, pelo menos, parece ter sido), mas há distinção clara entre cenas exteriores (para ambientação), geradas 100% por computação gráfica, e as gravações dentro dos cenários construídos.

Nas localidades futuristas são exibidos painéis com cronômetros, conferências em vídeo, nomes e animações, dando a entender que são hologramas e exemplo dos avanços tecnológicos da civilização “rica”. Nesse caso, os efeitos são bem aplicados e é inevitável reconhecer o bom trabalho da equipe responsável. Em geral, todos os “retoques” são bem aplicados e ajudam na imersão.

6
Trilha sonora


Ter uma série essencialmente brasileira dá a oportunidade de músicas e compositores nacionais ganharem destaque. E não foi diferente com 3%: André Mehmari ficou responsável por compor a trilha sonora, que contou com cavaquinho, piano, zabumba, rabeca, guitarra, entre outros instrumentos. Além disso, ele também teve o apoio de duas vozes no projeto: Marcelo Pretto, na abertura da série com uma música inspirada na cultura nordestina; e Mônica Salmaso, que cantou “O Último Desejo”, de Noel Rosa. 

A voz de Elza Soares também esteve presente em “Mulher do Fim do Mundo”, música tema da personagem Joana, que embala várias cenas durante os episódios. No entanto, a diversidade de músicas termina por aqui. Por mais que os nomes citados já possam representar nosso país, faltou um pouco mais de variedade, tanto de estilos musicais como de artistas.

7
Crítica social e representatividade



Por mais que seja uma ficção-científica, 3% nada mais é do que uma crítica social à conjuntura em que vivemos. O mundo pobre em contraste com o mundo rico — um lugar onde há muitos com pouco, e poucos com muito. Em uma sociedade que prega a meritocracia como base de sustentação, a série não mede esforços em mostrar que, de acordo com as provas, somente os mais inteligentes e qualificados devem ter uma boa qualidade de vida, enquanto o restante da população vive na miséria. 

Além disso, há grande representatividade na série, o que é um enorme ponto positivo. Personagens negros que ocupam papéis relevantes, como Fernando e Joana (interpretada por Vaneza Oliveira), uma garota com fortes características que, apesar de ser escrita para ser coadjuvante, acaba muitas vezes roubando o protagonismo. Também há grande representatividade feminina, que permeia a série com mulheres de características distintas.

8
Visão polarizada de críticos



Como você pode ter visto por aí, a recepção de 3% não foi de todo boa aqui no Brasil. Há diversos sites nacionais importantes que mostraram paixão pela série, mas isso é equilibrado pela visão de veículos mais sérios, como Folha de São Paulo, que terminou sua crítica com a seguinte frase: "quem conseguir chegar ao fim do primeiro episódio de '3%' já será forte candidato a habitar Mar Alto".

Assim, é de se esperar que as visões do exterior sejam similares... afinal, não é todo dia que vemos uma série nacional ser divulgada no exterior por um dos maiores meios de streaming da década. E se você apostou que lá fora estamos exatamente do mesmo jeito, acertou: o site io9 (Gizmodo) é um dos poucos a fazer uma crítica positiva, enquanto em sua maioria vemos críticas mornas (e muitas vezes bem duras, como no caso do The Telegraph) e muito similares ao que vemos em território nacional.

9
Originalmente brasileira


Um ponto comumente criticado por brasileiros preconceituosos com a própria cultura: "todo produto da indústria nacional é ruim". É a mesma visão daqueles que não reconhecem um bom trabalho de dublagem — e sabemos que você, leitor, conhece alguém assim. É triste, não? Pode até ser que uma parcela das críticas negativas venha dessa mesma "galera", mas temos que reconhecer que o buraco pode estar mais em baixo.

A valorização de produtos nacionais funciona como um ciclo: quanto mais críticas negativas, menos filmes são feitos, mais oportunidades e saídas paralelas são criadas, menos ingressos são vendidos e isso gera menos dinheiro para futuras produções.

Agora, voltando a análise de roteiro, vemos que emprestar ideias de títulos como Grande Irmão, Admirável Mundo Novo e, inevitavelmente, a comparação a Jogos Vorazes, são objetivos complexos na tentativa de criar uma história original com ideias tão mastigadas pela cultura pop.

10
Abertura para uma sequência


Recentemente a série foi renovada para uma segunda temporada. [ALERTA DE SPOILER] Claramente, o último episódio termina de maneira vaga, dando a abertura para uma continuação da trama. A série não terminou bem: teve um plot twist desnecessário que culminou em um desastre no plano de roteiro. Outro ponto falho é o desfecho que mais pareceu piada, com personagens agindo de forma incoerente e a trama fantasiosa demais.

E depois de 8 episódios, ainda não vimos o tal de Maralto, só ouvimos falar. Um gancho para uma segunda temporada? Sim, porém desnecessário. Preguiça dos roteiristas em pensar nesse mundo de abundância, ou baixo orçamento para não investirem nesse tão desenvolvido mundo? Tudo o que temos deste final é a incredulidade em ver que a série terminou daquele jeito. Uma season finale mal construída e decepcionante.

CONCLUSÃO

Com todo o peso de ser a primeira série originalmente nacional da Netflix, era de se esperar muito mais. O marketing foi/está espetacular, contando com banners pichados em pontos do Rio e de São Paulo, simulando um movimento contra o tal Processo retratado na série.

E mesmo depois de ler os pontos destacados acima, é necessário admitir algo: existem sim produções nacionais de completa relevância, principalmente tratando-se de ficções e críticas sociais de tamanha importância como vemos em 3%. O caso é que, em nossa visão (e na visão de dezenas de sites nacionais e internacionais), essa foi uma ideia que poderia ser melhor aproveitada com ajustes de roteiro e produção.

A essência de tudo ainda pode ser conferida na íntegra no YouTube (clique aqui para conferir a playlist com os vídeos originais), e por meio disso, a ideia inicial ainda pode ser questionada: houve grande influência da Netflix na adaptação de roteiro ou nós colocamos peso demais em uma série boa, só pelo fato de esperarmos algo impecável da rede de streaming?

Quem sabe... se 3% fosse feita por uma produtora independente e disponibilizada gratuitamente na internet, ela com certeza seria vista com outros olhos. Enquanto isso, ficamos com 100% de certeza: uma das melhores ideias de futuro distópico foi jogada no lixo.

   




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