Fidelidade às origens um personagem: um dos pilares mais importantes na adaptação de um roteiro. Se você errar em alguma característica ou fizer com que ela não funcione bem na tela, a atmosfera não é criada e o espectador perde a "magia" — e todo o mundo criado ao redor deste personagem também precisa funcionar, já que estas são engrenagens essenciais para a construção de uma história crível.

Por que começar falando sobre isso? Talvez porque simplesmente Doutor Estranho é o melhor exemplo de um personagem que casa tão bem com este universo mas desvia muitas vezes em reproduzir diretamente o que é apresentado nos quadrinhos. Logo, ele foi capaz de ser protagonista de um dos melhores filmes do ano.

Sinopse e atores

Em resumo, vemos uma construção simples e bastante compreensível da própria história: um grande vilão rouba um precioso item com a intenção de destruir o mundo e o herói da história precisa impedi-lo antes que seja tarde demais. Exatamente por essa construção simples digna de Sessão da Tarde que percebemos que o plot inicial não precisa ser nem um pouco complexo para tornar um filme bom.

A "magia", como citada anteriormente, que Doutor traz e todo seu peso são características que destoam de todo os outros filmes do MCU. Então vemos que nada é tão simples quanto parece, já que o vilão Kaecilius (e seus seguidores) utilizam da magia como sua ferramenta principal de ataque, diferente da força bruta dos Vingadores e de mutações ou do uso de tecnologias, como Homem-AranhaHomem-Formiga.

Essa "maturidade" por parte dos produtores será discutida melhor a seguir, mas é mais que necessária a menção de Benedict Cumberbatch como uma excelente escolha para viver o protagonista. Quer dizer, desde a Comic Con de San Diego pudemos ter um gosto da relação do ator com o "doutor", mas a presença deste é tão crítica que agora é impossível olhar para o personagem e não associar diretamente com o rosto do melhor Sherlock Holmes da atualidade.

É um nível quase Jack Sparrow-Depp ou, em uma realidade mais crível, Homem de Ferro-Downey Jr. Hoje este tipo de associação imediata não é nem um pouco comum, então quando isso ocorre logo no primeiro filme vemos como a evolução deste personagem pode levar rumos ainda mais fantásticos, já que Benedict sabe (e todos sabemos) que ele não está preso ao personagem, já que ele cresceu e tornou-se bem visto antes mesmo de ser cogitado para o papel.

Falando nisso, Mads Mikkelsen e Tilda Swinton são outros nomes hollywoodianos que foram um tiro certo para a franquia. Mads sempre terá uma face de "vilão Bond" e Tilda, apesar de não abusar de seu poder de transformação visual — como fez em Expresso do Amanhã e em Constantine —, é notável e respeitável. Rachel McAdamsChiwetel Ejiofor, dois rostos conhecidos de grande parte do público, também fizeram jus a seus respectivos personagens, sem destaque especial.


Visual e tecnologia

Algo muito mais notável que a própria atuação acaba ficando por conta da criação de um mundo mágico do exato zero. Quer dizer, a Marvel já deu indícios da presença de magia, já introduziu poderosas jóias como fonte de poder (obviamente uma alegoria sobre o real poder de pedras e cristais de nosso mundo na visão de algumas religiões), mas nunca deixou explícita a vontade de inserir o Doutor como representante de peso deste tipo de percepção da realidade.

Grande parte da criação e da credibilidade de "apetrechos" místicos acaba ficando por conta da própria tecnologia. Bato na tecla de que nada disso seria possível com a tecnologia presente anos atrás~, porém, ressalto que nada seria possível nem com a tecnologia de hoje se não houvesse um casamento bom entre o time de direção de arte e a fluidez dos atores em cena.

Um outro ajudante notável para fazer com que nós, parte do público, acreditássemos no que é exibido na tela, é a tecnologia IMAX. Filmes como Esquadrão Suicida, apesar de falharem em sua missão de trazer um bom filme, acabam sendo optimizados para este tipo de visual impressionante. O impressionante é que, no caso de Doutor Estranho muitas das animações tem como intuito principal te trazer para perto da "viagem" — e tem até Pink Floyd na trilha sonora.


Infantil ou maduro demais?

Uma das questões que mais ouvi nos últimos dias é a leitura superficial do filme. Enquanto boa parte daqueles que assistiram pensa que trata-se de um filme "infantil demais", observo o lado dos que pensam que o peso (e até o drama) envolvido na temática do filme (que é pura magia) são pontos explorados de forma inteligente e levados aos cinemas de um jeito bastante sutil.

Não por acaso, fico com essa segunda visão do filme.

Não é preciso ser expert em religião antiga para perceber que diversos itens mágicos utilizados pelos personagens são, literalmente, figuras representativas do que existe — e, acima de tudo, é tomado como catalisador de energias — em nosso mundo (pelo menos de acordo com estas religiões).

Isso não é só tomado pelas religiões europeias de séculos atrás, mas é algo bem próximo do que temos hoje em muitos países da Ásia. Logo, explica-se o fato de parte da história ocorrer no Nepal e em diversos templos, servindo inclusive como uma crítica à visão de nós, ocidentais, como ignorantes do que acontece por lá. Inclusive a linguagem contida nos livros, que é citada como sânscrito, ainda é utilizada para expressar diversas formas de crenças e é a base até mesmo para filosofia por trás do ioga.

Então fica aí uma segunda representação de alguns pontos importantes para você ter como ciência a partir de agora (ou quando você for assistir ao filme).

Do lado oposto, podemos entender que a magia já está saturada em qualquer universo cinematográfico em que é envolvida. Ok, a "magia de Hogwarts" é incomparável à seriedade trazida em Doutor, mas ainda merece ser respeitada como tal. Talvez por isso alguns vejam o filme como "infantil", por não discernir essa diferença gritante criada por nossa ciência ocidental do que é magia.

Doutor Estranho deve ser visto com um olhar crítico diferente de tudo aquilo que foi apresentado como "magia" nos cinemas até hoje. É fiel ao representar muitas crenças da atualidade e de séculos atrás e, principalmente, à toda "viagem" criada nos quadrinhos.


Conclusão

Gosta dos outros títulos dos estúdios Marvel? Vá ver sem pensar duas vezes. Respeita alegorias mágicas e quer saber o que acontece quando elas se unem a super-heróis? Compre o ingresso agora. É fã de Benedict? Não vai se arrepender, a atuação dele está impecável.





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