Há pouco mais de 20 anos, uma animação completamente imprevisível chega aos cinemas com uma premissa bastante simples e um conceito até então nunca antes explorado por grandes estúdios de Hollywood. Toy Story agradou crianças, adolescentes e, com certeza, adultos que hoje puderam aproveitar um dos resultados mais fantásticos criados por computação gráfica.

Hoje, como um produto paralelo escrachado, conhecemos o espetacular título que, apesar de perder parte do poder de seu humor com a tradução - algo inevitável, claro -, traz aos cinemas um "jeito de fazer comédia" que pode parecer estranho e valorizado por poucos. Festa da Salsicha

Sinopse

Seguindo o clichê de Toy Story e Pets, Festa da Salsicha tem alimentos de supermercado como protagonistas e busca mostrar "o que eles fazem quando ninguém está olhando". Muitos destes produtos embalados vê a porta da frente do estabelecimento como algo que leve ao "paraíso", despertando a curiosidade de um casal composto por um pão e uma salsicha que, finalmente, serão libertados de seus respectivos pacotes. 

Roteiro e possível interpretação

Como de praxe, a idealização deles sobre o que seria o paraíso acaba sendo destruída, como mostrado nos trailers. Sim, é uma saída inteligente de mostrar violência cômica, afinal, os humanos são cruéis e matam os alimentos sem pudor.

Consegue manter uma linha de raciocínio simples, com os diferentes destinos dos protagonistas exibidos de forma intercalada, cortando em momentos de tensão (que, para eles é o "destino" da comida nas casas dos clientes), e esse é um dos pontos que mais chama a atenção. Geralmente uma comédia mais clichêzona não tem tal profundidade.

Em partes, o filme até brinca com o jogo de câmeras entre a visão dos humanos e a das comidas. Por exemplo, na primeira metade do filme há a cena em que duas mini-cenouras lutam desesperadas por liberdade ao tentar rolar para fora do balcão, a cena é levada para a visão da cozinheira e... bem, são apenas duas cenouras que quase caíram no chão.

Inesperadamente, o longa retrata o conceito de verdade e suas diversas interpretações com base na religião (ainda dentro do mercado que, por sua vez, tem a função de uma cidade). Diferentes produtos representam diferentes grupos da sociedade, em baias divididas como bairros. Há preconceito, romance e amizade, com o objetivo de servir como espelho para nossa própria realidade.


Humor que deu certo (?)

É inevitável o grande mote do filme perder parte do sentido na tradução, mas os estúdios brasileiros fizeram um bom trabalho ao adaptá-lo para nossa cultura. Em inglês, tudo é muito mais malicioso, as piadas são mais explícitas e, em uma determinada cena (sem spoilers, claro) que abusa da metalinguagem, o humor simplesmente funciona.

Desconfio que este seja o único ponto fraco de todo o filme: a versão original é muito melhor. Claro, como explicarei a seguir, vale conferi-lo nos dois formatos. Porém, como um todo, uma boa comédia funciona independente da linguagem em que é apresentada. O filtro cultural é aplicado, sem sombra de dúvidas, mas sei que para entender brincadeiras maliciosas não importa você saber falar inglês nem português...


Dublagem brasileira vs. Vozes originais

Por aqui, boa parte do público pode ser levado ao cinema depois de saber que os dubladores brasileiros são integrantes do Porta dos Fundos. Na verdade, essa é uma das pouquíssimas vezes que recomendo que você assista à sessão dublada, querido leitor, pelo simples fato de fugir do que conhecemos como a experiência única de ver Guilherme Briggs falando palavrões de diversos tipos na telona.

É verdade. Alguns podem até curtir aquele desconforto de ver "sacaganem" no cinema - mesmo que seja só falada -, e essa situação é a mais próxima que você vai ter. Existem piadas que funcionam muito bem, admito, mas algumas só tem graça por você compartilhar as risadas com o resto daqueles que também estiverem contigo.

No original temos o elenco estelar: Seth Rogen, Paul Rudd, Edward Norton, James Franco, Salma Hayek e Michael Cera. Perdão, mas isso, por conta própria, já deveria valer o ingresso.

Com um final realmente bom - o que é pouco comum em filmes de Seth Rogen - que, infelizmente, só dá certo de verdade se você entender de inglês e estiver assistindo a versão legendada, Festa da Salsicha consegue delimitar bem seu público e merce ser conferido nas duas versões.


Conclusão

Não assista caso você sinta-se ofendido com pouco - e também não veja caso se envergonhe facilmente em público, já que rola muita coisa pesada na telona. Assista se quiser saber como seria a voz de Buzz Lightyear falando sacanagem, em português bem claro. E também vale ver se você realmente curte Gregório Duvivier e todo o pessoal do Porta dos Fundos. A escolha de dubladores foi boa e reconhecer isso é essencial.





Facebook




Comentários