“Fome” (que estreia no próximo dia 4) é um filme que provavelmente vai te surpreender — pelo menos foi o que aconteceu comigo. Pela temática já discutida de pobreza e sofrência, a ideia que temos e a sensação que é passada no começo do longa engana: o conteúdo parece ser bom o suficiente para um curta-metragem, mas vai além disso.

Ao longo do filme, esperei uma caminhada completamente muda do protagonista Joaquim, interpretado por Jean Claude-Bernardet, e que o silêncio parecia ser um elemento necessário em cada cena, para terminar em um momento que não levaria ao fim da trajetória, mas sim do filme. E ao contrário do resto, esta última parte realmente acontece (como um ciclo contínuo). Vemos a relação de forma natural do morador de rua com a cinematografia nostálgica de São Paulo, com os cidadãos e com o ambiente, que era a ideia inicial do diretor Christiano Burlan ao resgatar o potencial do centro da cidade.

Após os primeiros minutos de planos longos e imersivos, vemos outros elemento como, por exemplo, entrevistas com os mendigos feitas por uma jovem estudante (interpretada por Ana Carolina Marinho) e cenas com o próprio Jean. O que enriquece esses momentos é a naturalidade, devido ao roteiro simples e à consequência de gravarem na rua ao enfrentar a inconstância da cidade. Contudo, o diretor apropria-se desses elementos naturais, como engajamento inesperado de pessoas, que gera um sentimento mais espontâneo.


Em relação ao roteiro, destaco a liberdade que foi dada aos atores: em todas as cenas só havia o contexto inicial, já que o desenvolvimento dos personagens era dado por improvisos, sentimentos e reações inesperadas, guiados pelos próprios artistas. Assim, você nunca sente que está assistindo um filme, pois tudo remete à realidade.

“Fome” fez seu caminho pelos festivais, como a Mostra Internacional de São Paulo e o suíço FILMAR, e teve a chance de estar em salas de cinema mesmo fazendo parte de um nicho tão pequeno — e tudo foi por merecer. O longa traz assuntos que sempre são temas de discussão e, frequentemente, se tornam banais pela forma que são abordados. Isso acontece em várias obras, mas neste filme as críticas são mostradas de forma inteligente e original, mesmo que adaptado para o formato cinematográfico nacional com o qual estamos acostumados.





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