No último dia 28, estive na exibição do filme Fome, drama nacional que narra o ciclo da vida de um mendigo na cidade de São Paulo. Conversei com o diretor Christiano Burlan e o com o ator Jean Claude-Bernardet (conhecido por ser teórico de cinema, cineasta e escritor brasileiro). Confira a entrevista abaixo:

Felipe Giannelli: Quais suas influências para atuar de forma tão natural como um morador de rua? Foi uma dificuldade atuar sem a fala?

Jean Claude-Bernardet: O momento chave, para mim é quando molho as mãos em uma poça d’água na rua e lavo o rosto com isso. O que tinha acontecido? Era a primeira noite de filmagem. Estava caminhando em direção ao Theatro Municipal, uma cena normal, porém, pensei: “precisa acontecer alguma coisa, algo que jogará na situação”. Então, quando lavei o rosto, senti que a experiência era outra, que eu estava alcançando outra dimensão.

Felipe: Na cena em que você se encontra com seu antigo aluno, são apresentados argumentos do porquê de seu personagem ter virado um morador de rua. Você acredita no que diz? Os motivos eram reais?

JCB: Essa cena é totalmente improvisada. O Christiano [diretor] me disse que Francis [Vogner, que interpreta o aluno] falaria comigo após minha caminhada e eu só sabia disso. O problema é que não são essas grandes significações que importam, mas a forma como você pode estabelecer um diálogo rápido ou uma interação física e não cair no óbvio.

Felipe: Mas se você pensou nisto, é porque tem interesse em tornar-se morador de rua?

JCB: [Risadas] Não, e essa cena é fundamental! Mas só percebi isso depois. Na hora, não me dei conta.

Felipe: E agora, a sua visão sobre os temas abordados no filme mudou?
“O que importa é aquilo que o diretor e o espectador crítico elaborarão a partir desse trabalho…”
JCB: ...o percurso que ambos farão neste filme — o que será valorizado e o que será deixado de lado.

Felipe: Com autoridade na cena, é possível sentir (a partir da atuação) como é a sua realidade. Sempre penso que as experiências podem afetar o ator. Agora, para finalizar, fica a indagação: é necessário ter pena e praticar atos solidários?

JCB: O Christiano havia pedido que eu fosse contra os burgueses, mas eu não trabalho mandando mensagens. No idioma francês existe uma expressão para isso: o teatro da fisicalidade. É essa questão na qual eu me coloco. Não preciso de orientações específicas, entende? Para mim é diferente, só preciso saber do aspecto material da cena, o olhar do personagem e sua intensidade. Talvez o diretor precise, se ele quiser, porém, isso vem de um pensamento muito requentado e empobrecido. Atuo a partir dos gestos e da interação.


Felipe: Fiquei surpreso pelo conteúdo que o filme exibe e como ele destaca-se em meio a outras obras do gênero. Como você conseguiu isso? Quais suas principais influências?

Christiano Burlan: Comecei minha carreira mais ou menos aos 20 anos, então utilizava muitas referências e assistia a muitos filmes. Hoje, deixei de fazer isso, pois não posso usar como inspiração o meio no qual me expresso. Caso contrário, faria filmes sobre os clássicos que assisti, afinal, é isso que te forma. Agora que já passei dos quarenta [risos], faço cinema muito mais com o estômago (e instinto) do que com um processo intelectual. 

Felipe: Como surgiu a ideia para este filme?

CB: As ideias não vem como um insight, elas são resultado de um movimento. Algumas surgiram com a minha vivência na Europa (onde passei dificuldade), outras a partir livro "Fome", de Knut Hamsun — deixando claro que não é uma adaptação — e de "Luzes na Cidade", a coletânea de fotografias de Cristiano Mascaro. Ao ser questionado sobre conseguir ângulos tão distintos, ele respondeu que não tinha carro e caminhava pela cidade, então me reconheci nisso.

Felipe: Sim. Quando você caminha por uma cidade como São Paulo, é possível imaginar uma profundidade visual.
“Acho que a cinematografia paulista perdeu a capacidade de se reconhecer...”
CB: …principalmente no centro da cidade. Na década de 1960, filmes como “São Paulo, Sociedade Anônima” (de Luís Sérgio Person) e “O Bandido da Luz Vermelha” (de Rogério Sganzerla), tinham uma relação mais pulsante e nostálgica com o centro.

Felipe: O filme foi destaque em festivais de cinema (nacionais e internacionais) e em salas menores. Qual sua opinião sobre o espaço que esses filmes tem no nosso cinema?

CB: Nosso único problema é como chegar ao público, pois já estamos em um momento muito prolífero da produção audiovisual brasileira. As possibilidades não devem limitar-se às salas cinema. Com a internet, devemos entender que este é o momento para criar o diálogo com o público. E o fato de Fome ser exibido no cinema — um filme pequeno, preto e branco, de nicho — foi uma conquista enorme.

Felipe: Jean não se envolve diretamente nos temas do filme. Qual sua ideia sobre a solidariedade para tê-la abordado assim?
“Eu não acredito na bondade humana...”
CB: ...ainda mais quem mora na rua, sempre tem terceiras intenções ali. Me irrita muito e acho que ele também tem problema com isso. A gente não sabe quem são essas pessoas, afinal, nem todas ali estão lá por falta de opção. Algumas estão por escolha.

Felipe: Os planos longos e a improvisação ajudam para naturalidade, não necessitando a regravação de cenas. Quão complicada foi a filmagem do filme? Como essa atmosfera é criada com este estilo de direção?

CB: Foi dura. Um filme feito em seis dias não é fácil de filmar, ainda mais na cidade, porém, ele precisava desse fluxo contínuo — lembrando uma corrente sanguínea, de uma São Paulo que nunca para. Então, você tem que se adequar a essa corrente e seguí-la. Foi difícil fisicamente para mim e ele. O plano sequência é a maior essência do cinema, mas nunca tenho certeza se haverá mais uma criação de signo dentro desse plano. Não há como saber se uma atmosfera será criada ali. É uma coreografia, é difícil de se alcançar.





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