É meio inacreditável saber que depois de "Branca de Neve e o Caçador" lançariam uma sequência, quatro anos mais tarde, desperdiçando talentos. Tudo bem que, partindo de um enredo que rendeu quase 400 milhões de dólares de bilheteria, apostar num segundo filme não é completamente uma loucura. Por outro lado, apostar num roteiro tão bagunçado como o de "O Caçador e a Rainha do Gelo" pode não ter sido a melhor das opções. Deixando de lado a personagem de Kristen Stewart no primeiro filme, dessa vez o foco é direcionado para a concorrência entre o Caçador (Chris Hemsworth) e a Rainha Freya (interpretada por Emily Blunt, cujas atuações são sempre impecáveis). Veterana nesse universo, Charlize Theron retorna com seu papel de Ravenna (Rainha Má) e Jessica Chastain completa o elenco principal com sua personagem, Sara.  


A bagunça escrita por Evan Spiliotopoulos e Craig Mazin é só mais uma repetição da péssima ideia de misturar diversos elementos numa única história para que ela faça mais sentido. A cereja no topo desse monte de desventuras foi deixar nas mãos de um roteirista de animações um filme que se divide em dois momentos, pré e pós "Branca de Neve", com várias tentativas de entrelaçar os enredos. Isso acaba deixando os telespectadores completamente confusos; a produção dá a entender que seriam necessárias muitas referências do primeiro filme para a compreensão deste lançamento enquanto, na verdade, várias delas não são fundamentais. Facilmente alguém que nunca assistiu ao primeiro filme da franquia entenderia o novo longa, independente da presença excessiva de elos. Entretanto, não se trata de um filme ruim: de um modo geral é bem interessante e até vale a pipoca.

Quanto ao enredo, inicialmente é contada a história da Rainha Freya, irmã mais nova de Ravenna, e se passa antes dos acontecimentos do filme original. Tomada por ódio e raiva, sentimentos que a dominaram após trágicos problemas pessoais e amorosos, Freya desperta em si poderes adormecidos que a transformam na Rainha do Gelo. Sozinha e sem qualquer demonstração de sentimentos carinhosos, constrói para si um reino gelado e nele recruta crianças para comporem seu exército de caçadores mortais, entre eles Eric e Sara. Num reino, onde o amor é um sentimento completamente desprezível e o abandono dele é uma ordem, seus melhores caçadores descobrem-se apaixonados, mas logo se veem separados pela rainha.  


O filme, então, recebe o tom de sequência e é direcionado à parte principal. Nesse segundo momento tudo gira em torno do interesse de Freya no espelho mágico de sua irmã, que fora retirado do castelo de Branca de Neve. O Caçador então entra em cena, mais uma vez, com o objetivo de impedir que um objeto tão poderoso caia nas mãos erradas. Buscando recuperar características dos contos, a produção deu espaço para alguns dos anões que compõem a história original de Branca de Neve, rendendo algum aspecto cômico. A própria postura do personagem de Hemsworth, neste filme, fica menos carrancuda e dá voz a algumas tiradas que provocam risadinhas pelo cinema - contraste com a produção original que adorava um tom mais sombrio. Dessa vez adotou-se uma visão mais tradicional e descontraída, até mesmo mais previsível. 

Vale lembrar que o uso desmedido de características dos contos, da mesma forma que foi positiva, teve pesos negativos. As declarações de amor são tão platônicas e fictícias que, assim como nos contos, tornam-se exageradas e desagradáveis. Outro aspecto relevante foi a tentativa de agradar adultos e crianças num mesmo filme que não dá abertura para esse tipo de abrangência de público. Os tons mais adultos/maduros eram extremamente contrastantes com os tons infantis/fantasiosos; qualquer passo em direção à seriedade teve efeito completamente contrário, e agradar à família toda não foi um sucesso como costuma ser nas produções da Disney ou Universal Pictures.


Indiscutivelmente no que diz respeito aos efeitos especiais e à trilha sonora, a produção acertou em cheio na qualidade. Algo curioso é que, apesar disso, não agregou tanto valor às sequências de ação que todo blockbuster tem, perdendo, assim, sua funcionalidade. Além de serem poucas cenas com verdadeira ação, raramente é apresentado algo que seja empolgante ou memorável. 

Em contraste, o filme jogou muito talento fora nas atuações. Preso dentro de um Eric sério, melodramático e que só esboça sorrisos de vez em quando, Hemsworth não pôde trabalhar outros ângulos emocionais de seu personagem. Seguindo uma linha próxima, Jessica Chastain interpretou uma versão feminina de Eric que joga fora qualquer potencial incrível como atriz. Charlize, nas poucas cenas que aparece, traz de volta ao público todo o seu potencial maléfico ao interpretar uma vilã, sendo extremamente convincente e realizando um ótimo trabalho. Por fim, Emily Blunt soube ministrar bem as emoções de sua personagem, cuja personalidade muda da água para o vinho.


Ainda que tivesse a intenção de trabalhar o lado Grimm dos contos, acabou entrando em mais uma história que mastiga moral e mostra o amor de uma forma completamente tola. A produção encobriu um conto de fadas sob uma aventura sem grandes feitos e deu voltas em torno de um script completamente bagunçado. Mesmo com todos os problemas, no fim, "O Caçador e a Rainha do Gelo" pode não ter a produção mais genial, mas provavelmente não fará você se arrepender de assistir.





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