O Super-Homem é tratado como o ser de outro planeta que fez mais mal do que bem e Batman decide enfrentá-lo em uma luta que vai além da ideia mostrada nos trailers. Chantageando um dos heróis, Lex Luthor trabalha em paralelo com a criação do vilão Apocalypse, que pretende acabar com as duas cidades. Além disso, a Mulher-Maravilha mostra-se parte importante de toda a história, junto ao que supostamente seria o aperfeiçoamento do novíssimo universo cinematográfico DC e apresentaria os "sete" membros da Liga da Justiça.

Tanto Henry Cavill quanto Ben Affleck surpreendem em suas interpretações da dupla de heróis mais conhecida dos quadrinhos do mundo todo. Wayne e Kent são bem apresentados, sem muita profundidade, porém, seus respectivos ambientes de atuação profissional e pública são bem feitos. Jesse Eisenberg atua com o mesmo tipo de personagem inteligente e maluco em qualquer filme que faz, enquanto Amy Adams continua mediana com sua Lois Lane e Gal Gadot impressiona com sua Mulher-Maravilha/Diana Prince, dando um rumo diferenciado ao longa.

Infelizmente, são muitas histórias que não foram narradas de uma boa maneira, mas não foi tudo "culpa" de Zack Snyder como muitos estão dizendo por aí. Entenda abaixo a confusão causada com Batman vs Superman e decida se, para você, vale a pena ir com tanta expectativa ao cinema.

A recepção negativa é "culpa" de quem?



Primeiro, vamos desmistificar o que tem rodado a internet nos últimos dias: a culpa realmente é do Zack Snyder? Felizmente, não. Quer dizer, não é do diretor. Em uma adaptação ou inspiração em outra obra, devemos levar em consideração que apesar da criação de um roteiro mediano para o filme, o alicerce da história foi colocado de pé três anos atrás, com o lançamento de O Homem de Aço.

Assim, diferente de Quentin Tarantino e seu estilo único de direção, Zack adota uma montagem confusa em seus filmes, vide Watchmen, 300 e Sucker Punch. Nenhum dos três fez sucesso com a crítica e, mesmo assim, o diretor arrisca novamente em Batman vs Superman. Ele até suaviza a situação por tratar-se de Batman, obviamente, mas não podemos negar que o fluxo de filme seria o mesmo com alguns ajustes da produção toda, principalmente pela campanha positiva do filme. E tudo bem que não é tão comum ver os personagens Leônidas e Rorschach estampados por lancheiras mundo afora, mas Batman (assim como Super-Homem) tornou-se uma marca respeitada, conhecida e extremante rentável, logo, arriscar com um peso desses não foi uma boa escolha.

Um dos reais motivos por muitos não entenderem a maior parte dos acontecimentos é a falsa impressão de que ícones da cultura pop (como a dupla do título da obra) são exibidos em sua essência, quando na verdade Snyder utilizou de referências implícitas para construir uma corrente que remete fortemente aos quadrinhos. Um grande exemplo disso é o final do filme - que não será discutido aqui - e sua importância no universo de quadrinhos da DC, mostrando-se improvável para aqueles que acabaram de ingressar neste universo e tornando-se, assim, o motivo de  grande parte do público não compreender essa escolha feita pelo diretor.

A suposta "culpa" do fiasco está na má construção do que seria um primeiro filme do "novo" Batman e uma continuação (ou melhor, consequência) do que ocorreu em O Homem de Aço. E o pior de tudo: não tivemos nem um bom Batman vs Superman nem uma boa Origem da Justiça.

Nem Batman, nem Superman, nem a Origem da Justiça



É explícito o fato de esta ser a porta de entrada para o universo cinematográfico da DC, já que o título implica na apresentação de personagens da Liga da Justiça, além deste ser o motivo de grande parte do marketing do filme. Ele foi vendido e apresentado como a introdução à Liga desde o início. Infelizmente é apenas uma das duas partes em que ele foi dividido, ao invés de ingressar logo com um rumo/fluxo de narrativa mais prazeroso.

Assim como no título, no filme temos 50% de "Batman vs Superman" e 50% de "origem da justiça". A primeira parte mostra ideais descomplicados, apresentando argumentos e motivos que fazem com que a gente (público pagante) compreenda os motivos de Mr. Wayne colocar sua armadura e enfrentar o kryptoniano no que era para ser o ápice da narrativa. E felizmente foi, mas era esperado mais do "restante", já que não se conta uma história com uma única luta - principalmente quando as cenas-chave do combate foram exibidas nos dois trailers principais.

A outra metade introduz a Mulher-Maravilha e exibe por pouco tempo, simplesmente pelo fato de "afirmar que aparecem no filme", uma parcela dos heróis da Liga. O pior é que você não precisa ser cinéfilo nem grande fã dos estúdios Warner/DC para poder perceber que o conceito foi forçadamente misturado. Afinal, como dito acima, a campanha do filme gira em torno da apresentação dos supostos "sete" - como vimos no pôster de Jason Momoa como Aquaman ano passado - mas não faz jus nem a essa apresentação nem à origem do grupo.

Não é segredo para ninguém que O Homem de Aço foi um teste para a retomada de uma concorrência ao gênero de adaptações que cada vez mais cresce no cinema, porém, antes de ter a intenção de colocar o "gancho" definitivo na história de tentar pegar o mesmo rumo da corrida dos estúdios Marvel (com a união dos heróis que todos conhecem), poderia haver um único longa contando mais sobre Gotham, sobre Bruce Wayne e a importância daquilo que levou-o ao momento de "ódio" mostrado logo no quarto inicial do filme.

Sim, colocar "Batman" e "Superman" no título foi mais do que uma desculpa para vender mais ingressos. Justificar a presença do trio (os dois heróis citados acima e a Mulher-Maravilha) no filme é uma coisa completamente diferente. E Zack não conseguiu - com sua característica narrativa "picotada", intercalando visões, pesadelos e realidade - mostrar o que tinha todo o potencial para ser uma série de longas ótima. Deu um ar sombrio e não levou em consideração que 90% do público teria assistido a pelo menos um dos filmes da trilogia Batman de Christopher Nolan, criando uma concepção diferente ao que conhecemos do Cavaleiro das Trevas. No que Nolan levou um filme (desenvolvido em dois outros) para explicar as origens de Bruce Wayne e parte do seu passado completamente dark, Snyder resume na abertura (pior, até mesmo nos trailers) o que levaria à construção do conceito de Batman, o que só fica bom pela dupla de atores Lauren Cohan e Jeffrey Dean Morgan, de The Walking Dead, nos flashes da história.

Qualidade técnica



Mesmo com a versão 3D superdesnecessária, de duas ou três cenas o efeito até funciona, porém é necessário dizer o seguinte: Hollywood, pare de passar "filtros 3D" para vender filmes de forma errada. O mercado cresce com o apoio dos fãs, mas a técnica é completamente dispensável em longas que não foram filmados com as mesmas câmeras de Avatar. Isso é fato. Ainda apoio fortemente que a ideia do IMAX transporta mil vezes mais o telespectador para dentro da ação do que um simples "óculos especial". A produção fica mais cara e não são todos os cinemas que possuem tanto espaço, só que ao desviar do convencional 2D, a melhor saída é IMAX.

Filmes com um visual incrível e narrativa escassa não são completos, e foi exatamente isso que senti com BvsS. Cenas que confundem o espectador do que seria realidade e as supostas visões de um dos heróis, só pioram uma narrativa mediana. Nos últimos 20 minutos os efeitos são espetaculares, tanto que essa acaba sendo a melhor parte do filme. Isso é equilibrado com, por exemplo, a surreal colocação de Batman no canto de uma das paredes ao esperar para atacar um terceiro (fique tranquilo pois não é spoiler), em uma cena que quebra todo o clima e mostra um Cavaleiro das Trevas desconfortável apoiado nas paredes próximo ao teto, que passa despercebida por muitos no cinema.

É inevitável a comparação com a Marvel que exibe cenas épicas e longas de luta, principalmente em A Era de Ultron, mas pelo menos constrói uma excelente base (bem humorada até demais?) de seus protagonistas. As adaptações deles sempre serão mais "coloridas" e a DC sempre dará o tom sombrio merecido a seus personagens, mas BvsS não foi um bom começo para isso.

Veredicto final


Fugindo daquela concepção de que o filme foi feito "para os fãs, não para críticos", voltamos à base clássica de um filme: a narrativa. Senti muita falta daquilo que nos dá vontade de continuar assistindo ao imaginar o que pode acontecer em seguida, com um desfecho inimaginável, e em troca tivemos a péssima profundidade dada aos personagens. Parece que deveria haver uma história à parte, que ficaria subentendida aos que aterrissam em Batman vs Superman, mostrando o passado do trio principal. No longa temos uma divisão bem marcada de diferentes seções e linhas de narração diferentes, tudo acontecendo ao mesmo tempo, e só parte disso se encontra no final - como seria o jeito tradicional de contar-se uma história narrada de tal maneira.

A Origem da Justiça é um bom filme, com poucas cenas que te fazem se tocar de que finalmente temos Batman contra Super-Homem na telona, mas não vá ao cinema esperando surpreender-se, principalmente se já tiver esbarrado por aí com alguns dos trailers que revelam partes importantes do longa em si.





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