Nessa série sobre literatura vs. adaptação cinematográfica, começaremos com um clássico que muitos não sabem sequer que foi um livro: “Tubarão”.

Tubarão de Benchley


Um romance escrito por Peter Benchley em 1974 que consegue prender nos maiores detalhes, fazendo com que o leitor se sinta muitas vezes debaixo d’água junto ao “monstro marinho”. Conforme indicado na introdução/prefácio da obra, para escrever Tubarão Benchley inspirou-se no documentário Morte Branca em Água Azul (que conta uma expedição de Peter Gimbel) e no livro Blue Meridian de Peter Matthiessen. O autor não queria somente enfatizar o que todos sabiam (nas palavras dele “tubarão come gente”), então ao invés disso, ele leva a história com base nas condições econômicas de um balneário que, após alguns ataques, não poderia simplesmente fingir que nada aconteceu. Ele passa anos desenvolvendo sua própria construção imaginária do temido tubarão-branco, estudando suas atitudes com especialistas na área.

Sobre tubarões comendo humanos, o autor declara: “eles nem gostam do nosso sabor, e os grandes tubarões-brancos geralmente cospem os humanos de volta porque eles são muito ossudos e sem gordura (se comparados a focas, claro).”

Participação especial do autor como um repórter no balneário do filme
Nos últimos anos de sua vida, trabalhou com preservação marinha e era membro do National Council of Environmental Defense (Conselho Nacional de Defesa do Meio-Ambiente dos EUA) e ajudava-os em seu programa marinho. Um ano antes da publicação do livro, a Universal Pictures compra os direitos para filmar Tubarão, e Benchley escreve os primeiros esboços do roteiro da adaptação. Contudo, o produtor Richard Zanuck diz que deveria eliminar qualquer conteúdo que envolvesse “romance e máfia”. E isso fica bem compreensível, pois quem somente assistiu ao filme desconhece que isso uma vez fez parte da obra original.

Tubarão de Spielberg


Repleto de problemas em sua produção, o blockbuster ainda chegou a ter mais 3 continuações, histórias paralelas sem responsabilidade do diretor. A base é a mesma de qualquer adaptação atual, com os personagens principais mantidos. Há um ataque no balneário, mas por estarem próximos de 4 de julho não decidem fechar as portas para não causar pânico geral.

Possui pouco mais de 2 horas de duração, rendeu 9 milhões de dólares na época (e box office estimado de U$470 milhões) e foi um desastre logo de início, segundo Richard Dreyfuss “começamos a filmar sem um script, sem elenco e sem um tubarão”.


Mas houve pelo menos uma escolha certa em meio a isso tudo: a contratação de John Williams para a trilha sonora. O compositor foi capaz de criar a tensão necessária a um nível além do que podemos imaginar ao ler o original de Bentley. Para muitos, o icônico “tan tan tan tan (...)” crescente é o que marca o filme, unido ao perigo se aproximando, o que gerou uma cultura popular transformada em paródia para diversos meios.

Comparações (ALERTA DE SPOILER)

  • Tanto o livro quanto o filme começam com a morte de uma turista. No filme ela chama-se Chrissie Walkens; no livro, Kristie.
  • Depois ele mata um garoto e uma senhora, mas no filme só mostram o garoto morrer
  • No geral, o livro possúi mais conteúdo do que o filme, claramente. Um exemplo é a exploração dos problemas econômicos sofridos pela ilha, o que explica o motivo de todos serem contra fecharem as praias. As 1,000 pessoas que vivem lá obtêm lucro na época de férias, quando chega a ter 10,000 pessoas
  • No livro, é descrito do ponto de vista do próprio tubarão o seu enorme apetite similar ao de uma máquina. Também é mostrado que o tubarão possúi raciocínio lógico
  • Quase todos os personagens principais são terríveis no livro, tanto que Spielberg queria que o tubarão ganhasse no final, por todos serem antipáticos. Mas fez alterações necessárias para que o público gostasse deles:
  • No filme, Martin Brody é similar à sua descrição no livro.
  • No livro ele tem três filhos: Billy, Martin Jr. e Shawn. No filme são somente dois filhos: Mike e Shawn.
  • No filme, ele e sua mulher se dão bem, no livro sua mulher se sente presa em seu casamento.
  • Hooper é brincalhão no filme, mas no livro ele odeia qualquer um que tenha uma opinião contrária à sua
  • Ellen e Hooper tem um caso (fato removido por completo do filme) e se encontram sempre em um hotel da cidade. No filme, Brody é totalmente atrapalhado. No livro ele se sente velho e tem inveja de Hooper. No livro ainda tenta enforcar Hooper.
  • O prefeito, no filme, quer remover os avisos de “tubarão perigoso” dos outdoors, pois só liga para a vinda de turistas que não conhecem direito a praia. No livro, o prefeito é rico mas possúi dívidas com seu parceiro misterioso. Ele quer conseguir dinheiro com a praia para devolver a ele. Depois é revelado que o “parceiro” seria a mafia e então possúi ameaças de morte.
  • Quint é um bêbado falante no filme e quase não fala no livro. Spielberg adicionou o fato de ele ter feito parte da marinha e estaria no navio que atirou a bomba de Hiroshima. Ele não foi bem sucedido, viveu no mar por dias e lutou contra tubarões.
  • No livro, ao saírem ao mar à procura do tubarão, Brody descobre que Quint usa partes de golfinhos bebê como atrativo. Isso aumenta os conflitos entre ambos. No filme não vemos muito além de um não se importar tanto com o outro.
  • Quint é mastigado pelo tubarão no filme, enquanto no livro seu pé fica preso em uma corda que é puxada pelo tubarão, e ele morre afogado.
  • No filme, os três passam noites totalmente tranquilos à procura do tubarão, enquanto o animal ataca-os. No livro, todas as noites eles voltam para casa, para dormir no conforto de suas camas.
  • Hooper ataca o tubarão com sua arma enquanto está debaixo submerso dentro de uma gaiola. No livro, o animal quebra a gaiola e come-o. Já no filme, o animal fica preso na gaiola destruída enquanto Hooper consegue escapar por pouco.
  • No filme, Brody explode o tubarão. No livro, enquanto Brody está sobre os pedaços remanescentes do barco, ele espera o tubarão se aproximar e reza para que tudo acaba rápido. E então o animal simplesmente MORRE, pelo fato de estar ferido com o arpão que Quint atirou nele.




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