Retomando um dos conceitos já citados anteriormente, acontecia algo extremamente interessante nos EUA dos anos 1930. Os criminosos e gângsters tomavam proporções míticas como anti-heróis: destacam-se nomes como Machine Gun Kelly, Ma Baker, John Dillinger e os famosos Bonnie e Clyde. O problema na época, em meio à depressão, foi de que talvez a polícia não era eficaz quanto aparentava. Talvez precisássemos de heróis.

O primeiro lugar para conseguir-se essa visão foi nas pulp magazines. As tirinhas de jornal tambem trabalharam nisso, lançando uma das mais bem sucedidas tirinhas de todos os tempos, a história de Dick Tracy. Esta, é uma peça original de Chester Gould, que em 1934 criou Dick Tracy. Ela evoluiu mais tarde para o formato de HQ, licenciando os direitos das tirinhas e publicando-as em encadernados. Foi mais ou menos dessa maneira que a indústria começou. Pouco depois, começou a esgotar-se a fonte de tirinhas e os fabricantes não queriam pagar pra obter o direito de reproduzir os personagens dos jornais nas próprias histórias em quadrinhos, os heróis que os EUA precisava, as histórias que eles precisavam. Provavelmente as maiores influências dos atuais quadrinistas são dois artistas: Milton Caniff, criador de “Terry and the Pirates” em 1934, e Alex Raymond, criador de Flash Gordon, Jungle Jim e de Secret Agent X-9.

“Terry” é uma aventura sobre um jovem, Terry Lee, e seu mentor mais velho Pat Ryan. Caniff tinha uma maneira excelente de narrar com o uso das ilustrações. Ele é considerado o reitor dos ilustradores de HQs, tanto pelo uso da coloração preta em seus contos, quanto pelos seus layouts. Seus personagens ganhavam vida, e os leitores podiam sentir que eles realmente existiam. Depois Caniff cedeu “Terry and the Pirates” para George Wunder. Eis então uma outra criação: Steve Canyon.


Já o estilo de Raymond era suave, com atenção especial às ilustrações, e a coloração utilizada maravilhava os leitores. Quando ele faleceu, a tirinha foi tomada por Mac Raboy que fez, além de Flash Gordon, as tirinhas do Capitão Marvel Jr. nos quadrinhos. Raboy prosseguiu com o estilo suave de ilustração popularizado por Raymond, mas Flash Gordon não era o único “homem do espaço”. Antes dele, havia Buck Rogers. Buck Rogers veio das pulp magazines e foi adaptado aos quadrinhos, esboços estes feitos antes mesmo de 1943. Tarzan, o Rei da Floresta (Lord of the Jungle) foi lançado e tambem adaptado das pulp aos quadrinhos.


A tirinha acima foi feita por Lee Falk com auxílio do artista Fred Fredericks, particularmente em uma edição de domingo. É interessante perceber que Mandrake era um mágico imergido no místico e no sobrenatural. Outra criação de Lee Falk foi outro rei da floresta, mas não era tão parecido assim com Tarzan: Phantom. Phantom, na verdade, era uma das maiores influências de Bob Kane e Bill Finger para a criação de Batman. Quando Bob King mostrou a Bill Finger seus primeiros esboços do Batman e sua máscara que cobria apenas os olhos (denominada “domino mask”), Bill Finger olhou e sugeriu: “não seria melhor, já que ele é chamado de ‘Batman’, uma máscara maior com fendas nos olhos e chifres no topo?”. Daí Bob Kane redesenhou-o. E então Bill observou e disse: “não seria mais misterioso se você deixasse os olhos brancos, assim como fizeram nas tirinhas do Phantom?”. Se você olhar os olhos do Phantom e comparar com os do Batman nas tirinhas de jornal de 1945, percebendo a máscara do Batman e os olhos brancos, há uma influência evidente de suas origens.

Mas mesmo os personagens das pulps que não trilharam seu caminho até as HQs viraram enorme influência aos mais diferentes tipos de super heróis e de pessoas que foram responsáveis por trazê-los até nós. Um bom exemplo é Doc Savage. Ele foi um dos primeiros e principais heróis pulp, e sua influência mais pesada foi sobre aquelas duas crianças de Cleveland, Jerry e Joe Shuster, para a criação do Super-Homem. Em 1933, Doc Savage teve propaganda nas pulps como sendo o “superman”.

Ele também era conhecido como o “homem de bronze”. Para Jerry Siegel, o Super-Homem tornou-se o homem de aço. O nome real de Doc Savage era Clark Savage. O nome real do Super-Homem? Clark Kent. Doc Savage tinha uma base secreta, estranha e maravilhosa escondida no Norte congelado, chamada de Forte da Solitude. Muitos anos depois, o Super-Homem começou com seu próprio quartel general no congelado Polo Norte, o qual resolveu chamar de… Forte da Solitude. Os paralelos traçados são óbvios com as influências de Savage sobre Super Homem.



O Sombra era um homem misterioso, perseguindo criminosos nas sombras da noite. Uma vez Bill Finger, o criador do Batman, falou sobre como ele e Bob Kane foram influenciados pelo “Shadow”, porque ele tomou como base uma história de uma edição de novembro de 1936 da pulp Shadow, chamada “Partners of Peril” e usou-a em maio de 1939 para a criação da primeira história do Batman na Detective Comics, “The Case of the Chemical Syndicate”. Se você olhar pra arte da primeira capa do Batman, edição #27 da DC, perceberá que é um ângulo tirado diretamente de um painel feito por Alex Raymond para Flash Gordon.



Então pode-se concluir que as raízes dos heróis dos quadrinhos está diretamente ligada aos personagens das pulps e das tirinhas. Stan Lee diz que lia e amava as tirinhas de “Spider, Masters of Men”, e achava Doc Savage excelente por não ter super-poderes, e mesmo assim suas histórias serem magníficas. Ele acrescenta que lê Tarzan, Sherlock Holmes, Charles Dickens, Edgar Allan Poe, ficção científica, e que ama tudo o que lê. Declara que lia “todos os bons escritores”. Diz que haviam alguns gênios nas tirinhas, como Hal Foster (que fez Prince Valiant) e Milton Caniff (citado acima) e ele costumava tentar desenhar todos eles.

Por fim, os americanos precisavam de algo mais, algo que os mantivesse mais entretidos do que os heróis das pulps. Eles precisavam de alguem mais rápido do que uma bala, mais poderoso do que uma locomotiva, capaz de passar sobre prédios enormes em um único salto. Então eis que, em junho de 1938, há uma explosão em um planeta tão, tão distante, enviando para cá exatamente aquilo que eles precisavam para escapar da depressão e para lidar com o ataque devastador da 2ª G.M.: o Super-Homem.


Esse texto foi baseado nas aulas do curso “SmithsonianX - The Rise of Superheroes and Their Impact on Pop Culture”.




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